sábado, 12 de abril de 2008

A pessoa em Pessoa

Eu não lembro se li esse título em algum lugar, ou se fui eu mesma que inventei há algum tempo atrás, se me saiu agora, eu realmente não sei... Sei que estou lendo a obra poética de Fernando Pessoa, num livro muito lindo que eu achei na biblioteca da universidade. Um desses livros que você sempre sonhou em ter pra você, mas sabe que já não vai conseguir encontrar porque não se fazem mais encadernações como antigamente, infelizmente. Talvez um dia eu o ache em um sebo ou em uma livraria que venda livros antigos... Por enquanto vou aproveitar que ele está comigo e cuidar dele com todo carinho que merece, porque é bom ter Fernando Pessoa nas mãos, tão bom quanto tê-lo no pensamento e na alma.


E por estar absorta na leitura e também em homenagem à uma prima querida que tem alma de poeta e tem todo meu apoio pra se aventurar por esses caminhos, vou deixar por aqui alguns poemas que eu gosto muito.
=)
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Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
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Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
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Ah, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço,
Vejo passar um vôo de ave
E me entristeço!

Por que é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Por que vai sob o céu aberto
Sem um desvio?

Por que ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade

Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minh'alma alheia

Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do vôo suave
Dentro em meu ser.
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Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra de ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei;
Fui-o outrora agora.
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"Um poema é a projeção de uma idéia em palavras através da emoção. A emoção não é a base da poesia: é tão-somente o meio de que a idéia se serve para se reduzir a palavras."
Fernando Pessoa

10 comentários:

Nina Roberta disse...

Ô Meu Deus, que lindo, ganhei algumas frases no teu blog.... =]
Adoreii os poemas...

Te amooo, prima querida! ;*

tiago.augusto disse...

pois é... grande pessoa o Pessoa! =P

e como assim o Tolkien num tá na minha lista? ele é o primeirão uai!! o.O

bjo!

L.Neres disse...

Puxa, curto muito Fernando Pessoa também... De fato, não se fazem mais livros com capa dura etc e tals como antigamente, rsrs...
Eu tenho uma coletanea dele que fica na minha escrivaninha, "Quando fui outro", mto bacana tbm...
Legal saber que curte este poeta, é um dos meus prediletos...
Abs
Leandro

.drummerchick. disse...

Pow, Pessoa é tudo de bom! E tem uma música do Chico (ou é Caetano?) chamada Língua que tem uma linha assim: "Gosto do Pessoa na pessoa, da rosa no Rosa"... É isso que vc tava tentando lembrar?

Adriano Caroso disse...

Lorena, você está coberta de razão quando fala em cuidar bem desse livro. Um "Pessoa" é um tesouro valiosíssimo. Quanto ao título, Caetano Veloso, em sua música Língua, fala o seguinte: "Gosto do Pessoa na pessoa, da rosa no Rosa". Não é igual mas lembra bastante. Eu, que não sou besta nem nada, "ponguei" nesta pérola de trocadilho,( aliás ele é mestre nisso, Caetoso Velano, que faz trocadalho pra carilho) e o inseri numa dedicatória que escrevi no livro "Mensagem" de Fernando Pessoa com o qual presenteei a minha namorada, como você pode ver no link http://adrianocaroso.blogspot.com/2007/12/dedicatria.html
Mas, falando de Pessoa, nada me encanta mais do que este:

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

Beijos!

NANDO DAMÁZIO disse...

Eu descobri Pessoa na adolescência, na época de escola, por imposição da professora de Literatura e, desde então, me apaixonei por sua obra, leio tudo que dele me cai nas mãos ..
Boa seleção você fez !!

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Também gostei do seu cantinho, obrigado pela visita e voltarei mais vezes !!

Amigao disse...

Não sei pq mas este post caiu como luva nesta tarde de chuva.E ainda consegui uma rima.
Perfeito.

Beijão do amigão.

Éverton Vidal disse...

Uia! Eu também estou lendo Fernando Pessoa! Caramba rsrs é simplesmente fantástico tudo o que ele escreve.

Mas vc é mais privilegiada por estar lendo num livro antigo... acho que a "comunicaçao" é maior. Cuide dele mesmo!

Obrigado pelos comentários no meu blog, sempre me fazendo refletir, e também me alegrar por existir pessoas como vc no mundo.

Bj Lorena.
Inté!

Éverton Vidal disse...

O título ficou legal rsrsrs "A pessoa em Pessoa"... é de Caetano né?

Noslen ed azuos disse...

Estou chegando com palavras
Encontro Pessoa
Que das palavras
Sobre-voa.

Abraços
NS