segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Terras do Sem Fim, 02 de Dezembro de 2008

Querido velhinho,

Uma vez me ensinaram a começar as cartas com a frase decorada "te escrevo essas mal traçadas linhas..." e patativas, e eu não gostei porque cartas não devem ter nada de decorado nelas. Na verdade, essa era a forma que meus pais aprenderam a começar e eu entendo, precisava-se de decoro com os mais velhos e era melhor decorar do que errar o decoro. Mas eu não acho que precise de frases feitas para começar essa carta justamente porque não existe decoro entre nós: existe é cumplicidade.

O que eu queria dizer é que Dezembro chegou e eu nem vi. Dessa vez eu perdi e eu sempre vejo, eu nunca perco a chegada dele, a sua chegada e a chegada de tudo que começa no final. Desde criança que esse é o mês mais brilhante, você sabe. É o mês da felicidade e do choro sem motivos. Mas acho que com o tempo todo choro tem motivo e felicidade, então, passa a ser o próprio motivo de tudo ou nem existe. E Dezembro chegou e eu nem vi e nem senti. Me senti foi estranha quando dei conta, mas agora tudo bem, me perdôo e espero que você também me perdoe o atraso dessas mal-traçadas linhas.

Esse ano fui uma boa menina. Bebi um pouco além do habitual, o que quer dizer que me permiti mais, mas acho que isso não interfere no nosso acordo prévio. Estudei um pouco além e não fui além de nada por causa dos estudos, o que me dá um saldo negativo nessa área. Me comportei bem e mal, acho que podemos concluir que eu fui normal, pela primeira vez em muito tempo. Você me conhece e sabe dos meus medos e inseguranças, não preciso repeti-los aqui, mas que fique claro que eu me arrisquei mais. Arrisco até a dizer que fui além das minhas expectativas. Alcei vôo e voei... e caí das alturas também, quebrei as asas e agora preciso de tempo para consertá-las e tentar mais uma vez. Olhei para dentro, como sempre, mas dessa vez com algumas chaves para as gavetas que nunca me permiti abrir. Mais uma vez você sabe que tranquei arquivos na infância que pegavam poeira desde então, sem nunca serem abertos. Pois destranquei alguns deles e revirei o que estava guardado e joguei foi bagulho fora! E outros tantos eu guardei como recordação que eles são, nada além disso. Tomei decisões e refiz contratos; mudei de rumo e de rima, gostei da mudança e agora pretendo ficar por aqui por um tempo. Juntei cacarecos e amigos no mesmo balaio e embrulhei tudo com fita de presente vermelha e dourada, e vou me dar as recordações de presente no dia da comemoração.

Essas são as minhas notícias e queria saber de você. Sei que não é hábito seu responder cartas com outras cartas, mas queria saber se aí ainda neva e se você ainda voa, como da vez em que te vi, lembra? Tinha quatro anos e eu lembro, te vi junto àquela bicicleta iluminada pela luz dos meus olhos que brilhavam como a Estrela. Eu te vi e tive certeza que era você e tive tanta certeza que, mesmo tentando destituí-la, eu nunca consegui verdadeiramente. Queria saber se você vem para todo mundo esse ano, que o mundo anda muito precisado, você deve saber. Crianças são jogadas pela janela, outras morrem de tiro e prédios e carros explodem nas pessoas. E hoje não existe carta delas nas suas correspondências e nem luzes nas árvores das suas famílias. E se você ainda pode voar, quer dizer que pode chegar nos lugares onde a água anda lavando tudo, inclusive a esperança. E se ainda lê cartas, pode ficar sabendo que o meu pedido esse ano é justamente que exista Natal onde não existe esperança. Em mim ela existe, e de sobra.

Daquela que nunca te esqueceu.

Lorena

Imagem: deviantArt

20 comentários:

Jaque Lima disse...

O papai noel. que traz presentes. e esperança. ás vezes me pergunto se é pra todo mundo. se é de verdade. se posso ficar esperando. quando tinha uns 5 anos, tinha certeza que o vi também, aí ele se escondeu átras de uma árvore. Depois meu pai me levou pra dentro. No outro ano, descobri que o natal era mais que presente, era um coisa que me explicaram ser renovação. Fazer de novo? pode ser. Aí a gente refaz, e tenta não cometer tantos erros.

Beijos!!!

Leandro Neres disse...

E ele te ouviu. E reforço teu último pedido.
bj

Camila disse...

Me arrepiei, porque essa carta também poderia ter sido escrita pro Papai-do-Céu. (Quando criança, achava que Papai-Noel era Papai-do-Céu... E não é mesmo não?) Uma carta-apelo, uma carta-confissão, uma carta-relato e tenho certeza que os dois estão orgulhosos de você. Só uma mulher com alma de menina podeira escrever realidades tão duras com palavras tão doces e fazer pedidos tão sérios de um jeito tão meigo.

Que todos os seus desejos se concretizem. Esses são os meus votos.

Beijos, Lores!!!


PS: Nada mais conotativo que uma carta pro Papail Noel. Fiquei com vontade de escrever uma também.

Leandro Neres disse...

PS: Nada mais conotativo que uma carta pro Papail Noel. Fiquei com vontade de escrever uma também.[2]

Alice disse...

Olá! estão abertas as inscrições do 4º Amigo Oculto Virtual!
Tô esperando você,viu?
http://amigocultovirtual.blogspot.com

:*

Helena disse...

ai que fofura!! rs.

ADOREI!
(e mais pra perto do Natal vou te imitar, pode?)

no mais vim também deixar um beijo, menina. e te dizer que adoro suas opiniões e comentários (sempre me fazem refletir).

ah! não sou baiana não! :/
sou de Fortaleza, pequena.

bjão!

Thais disse...

Ai Lóris, que LINDO :)

um 2009 com mtas permissões pra vc! \o/

Ju... disse...

Pelo visto, você foi sim uma boa menina, Lorena.
E seus pedidos serão ouvidos, certamente.

Lendo você, acho que fui uma ovelha negra. Mas me libertei...

Bjo!

Nati disse...

Ô Lore, que linda a sua cartinha. Me deu até vontade de escrever uma que nem eu escrevia quando mal sabia escrever, inclusive, com os errinhos de português.

Beijo pra você!

Nina Roberta disse...

E que venha 2009.
eu escrevi uma quarta assim, mais tava querendo colocar ela dentro de uma garrafa e jogar em alto mar.. O dificil disso só vai ser o "alto mar". aushuahsuaus
Beijo Loraa.. saudades de você.

Nina Roberta disse...

Isso Lora.. shopping, churrasco, sorvete, filme...
:DD
te adoroo.

Letícia disse...

Lori,

Bela carta a sua. Falou de si mesma, mas não esqueceu os outros. Que o Natal seja bom, que o ano que vem também seja bom e que você continue acreditando.

Comigo aconteceu diferente. Tive uma infância meio adulta e não pude escrever cartas pedindo nada. Eu gostava do fim de ano porque era tudo diferente. Tinha luzes e cores nas ruas, mas eu era ou fui uma criança que precisou ficar no chão da vida real e acreditar era um verbo que vivia londe de mim. Hoje acredito mais. Fé em todas as coisas boas e esperar que as pessoas tenham seus direitos respeitados e que o mundo volte ao normal porque tudo anda estranho. Espero que tudo fique em paz.

Beijos.

Su disse...

Que cartinha mais linda, Loris...

Eu tbm nem vi dezembro chegar, qndo me dei conta a cidade já estava toda iluminada e meus pais já estavam armando a árvore de Natal e enfeitando toda a casa.

*eu não gosto de natal e nem de Papai Noel, e todos os anos quando os meus pais começam essas arrumações eu me fecho no meu mundinho e tento esquecer tudo isso... eu tenho uma cartinha dessas que eescrevi aos 12 anos de idade, acho que vou procurar.. hehehe

Beijos, Lolli!
Desculpa o sumiço, mas é que já estou na reta final!! Ufaa, falta BEEEEEM POUCO!!!!


Saudades de vc tbm, já já, vamos nos encontrar!!!

Du disse...

...que exista Natal onde não existe esperança...

Só essa frase já valeu o texto todo, que é a coisa mais linda de ler, Lô!

Deu vontade de escrever a minha cartinha também! \o/

Só que eu não gosto de Natal e sempre tive medo do Papai Noel... =/

Beijos, querida do meu coração!

Lorena disse...

Puxa... eu sempre acho estranho pessoas que não gostam ou não comemoram o Natal... Cada um tem seus motivos, mas ainda assim, é algo tão diferente do meu mundo que não me habituei ainda.
Mas respeitO. =)

Camila disse...

Lores, vim comentar o comentário do meu texto...

Eu imaginei que você fosse se identificar com a profissão do meu pai, porque, sempre que você fala na sua, lembro dele. Ele também ama o que faz é super empolgado com os bichinhos dele... hehehe...

Mas ele não é biólogo. É engenheiro agrônomo, mas sempre esteve mais voltado pra entomologia. O doutorado dele foi nessa área, sobre as moscas brancas. Sei muito bem porque ele fica ensaiando a defesa da tese dele pra mim e pra minha mãe. E eu achava lindo!!! Heheheh...

Sim, minha família é linda mesmo e dou sempre graças a Deus por isso. Acho mesmo que meus pais são os melhores pais do mundo. E tenho certza que você acha isso também dos seus. E isso é maravilhoso!

Você conhecerá minha irmãzinha sim! A irmã mais linda do mundo.. hehehhe... (Sou super babona dela.)

Beijinhos, Lores!!!

Beto Canales disse...

Tudo o que precisamos parece existir. O problema é que escondido.

Francine Esqueda disse...

Como vao as coisas???
Adorei ler sua cartinha!
Já fiz meus pedidos ao papai noel!

Ps Assisti Amélie Poulain e lembrei daqui! bjus

disse...

Que doce palavras minha linda!
Seus pedidos já foram aceitos com toda certeza!
Amo esse mês de dezembro, vivo o Natal plenamente em todo seu segmento.
Só não dou mais a importância que dava à troca de presentes, hoje vekjo Natal no verdadeiro sentido.
Beijos linda e que Deus te abençoe sempre e sempre!

Éverton Vidal disse...

Puxa a Lorena cada vez escreve mais meu Deus.
Acho que o papai Noel deu uma mente fervilhando de idéias pra ela. E eu quero também!!!

Gostei demaisssss desse texto Lorena. E nao é o primeiro texto seu que me faz viajar até a minha infância. Acho que deixei de acreditar no bom velhinho lá pelos cinco... Mas ainda lembro do natal dos quatro, quando ganhei um carrinho a pilha e achei que fosse ele.

Bah... Quase que eu volta a crer no papai Noel, e talvez, de um aforma especial, tenha mesmo voltado a crer.

Um abraçao amiga! E boas férias. Mas nao suma nao!