quinta-feira, 19 de março de 2009

Caos Comovente

Numa casinha pequena de madeira, no lugar onde o vento sopra de leste a oeste com força e bate portas e janelas, ela está sentada debaixo das escadas, ouvindo o uivo agudo que o vento faz ao passar pelas frestas da parede. É seu esconderijo do mundo de fora. É quente e seguro, assim como o caderno que segura entre os dedos. É o seu segredo. Cheiro de tinta fresca e coisa com mofo verde. Cheiro de parede descascada e madeira em vias de apodrecimento, é um cheiro doce e conhecido o do seu segredo, ali debaixo das escadas. Os olhos bem abertos procuram as páginas amareladas onde o mundo era ditado de tempos em tempos. E há tempos perdera o costume de ditar o mundo e de se esconder debaixo das escadas. E agora, por obra do destino ou de um deus imenso e titereiro, ela sente novamente o poder que as palavras têm e precisa delas novamente.

Abre o caderno de folhas amareladas e lê as letras escritas há tanto tempo. E elas parecem vir de outra época, de outra pessoa, alguém desconhecido que viveu uma vida que era só sua e que nada tinha a ver com a realidade atual das coisas. Vira as páginas com delicadeza até chegar à página do recomeço. Segura a caneta com firmeza e aponta para a linha azul no meio da página amarela. E é no momento crucial da primeira letra a ser bordada que o vento entra pela fresta da janela com força de tempestade, e carrega papel e tinta, caderno e caneta, escada e as paredes com cheiro de tinta verde mofada. E carrega idéias antigas e todos os seus segredos, carrega consigo pensamentos e o rosto refletido no espelho.

E sobra apenas ela, no meio do caos, nua de toda a verdade. Porque o mundo era o caos. Tudo estava fora do lugar e ela não reconhecia mais nada. "Aonde eu estive, que nem a mim me reconheço? Será mesmo possível que esses olhos sem foco e essa boca sem vida são aquelas marcas que eu vejo no retrato da parede? Somos ainda a mesma pessoa?" Não, não são. Pois o vento que vem do leste soprou com tanta força que derrubou e revirou, e deixou a vida como se tudo fosse o grande fim, que era agora o recomeço do mundo, aquilo que chega depois da tempestade, o que vem com a calmaria. Os presságios secretos do caderno.


Imagem: deviantart.

10 comentários:

Letícia disse...

Um mundo guardado. Todos temos. Alguns mais, outros menos. Alguns escondem tanto esse mundo e esquecem que ele existe. Bem aqui. Do lado de dentro. E há quem diga que a gente é feito desse mundo não aparente. Mundo de mofo, de gente que partiu e da gente mesmo que envelheceu, mudou de cara, o corpo esticou ou murchou. É que a gente vive assim. Não tem outra. Não tem desculpa ou fuga que se possa usar dizendo "Eu não tenho problemas, nem segredos. Sou o livro aberto". Eu que não quero ser um livro aberto. Quero as minhas ilustrações. Minhas próprias ilustrações. Da primeira à última página quero estar aguda de sentimento porque não sou alegre, nem triste, nem poeta. E também não sou uma flor. Talvez eu seja uma dessas mudas de planta e cresço demais ou não saio do canto. Fico seca de receio e mantenho a fé pra não dizer que sou cheia de agouro. Eu sou o melhor e o pior de mim. Um sacrilégio em dia de missa. E mesmo que eu escreva difusa confusa no sufoco de um diário, é a tal da voz interior. Essa voz que é tímida e sem vergonha e mesmo que a fala fique embargada por essa vontade de dizer tudo e fingir que nada machuca, eu quero viver o espetáculo inteiro. O palhaço sem graça me fazendo rir sem motivo. Mas eu vou rir mesmo porque comigo é assim. Eu dou risada até do vento. Por que não rir de um tombo ou de um lampejo de fracasso? Vou rir muito. E cuidar de mim e não cuidar. Me deixar de lado e não deixar. Ouvir música e me envenenar de mim e tomar porre de meu segredo que é visto por todo mundo, mas eu finjo que não. É assim que a gente vive. Requentando o que sente e extrapolando de vez em quando. Mas viver é isso. É lua crescente e não um quarto minguante.

Lori,

Esse seria um texto que estou trabalhando. Nada de tão inédito. Mas ler você me fez trazê-lo até aqui porque é isso. Estamos praticando a voz interior. "Essa que é tímida e sem vergonha". Tudo ao mesmo tempo. E você falou e escreveu. É livre e pode criar elefante num quarto pequeno. Você é grande, amiga escritora. E vou postar o texto.

Continua acreditando. Perde a fé não.

Love u.

Glaucia disse...

Te digo que é lindo! Lindo...me arrepiei no "momento crucial da primeira letra a ser bordada que o vento entra... "

A vida é bem isso mesmo...todos temos o nosso "esconderijo do mundo de fora".

Beijos. Lindo texto!

Su disse...

Lorii, que lindo!!!
Um texto completamente saboroso sendo costurado com algumas lágrimas, alguns suspiros e lembranças que poderiam ser levadas pelo vento, mas que insistem em ficar!!
Perfeito demais!!!
Beijos, Flor linda!!!

Líviarbítrio. disse...

Fez-me lembrar os últimos capítulos da Liesel Meminger (A menina que roubava livros), visto por outro ângulo.

"E sobra apenas ela, no meio do caos, nua de toda a verdade".

Um ângulo que o escritor não poderia compreender em uma mulher.

Lindo demais.
Beijos.

Carlinha Abreu disse...

Também me lembrei da Liesel Meminger.

"E agora, por obra do destino ou de um deus imenso e titereiro, ela sente novamente o poder que as palavras têm e precisa delas novamente."

É sempre bom depois da tempestade vir a calmaria. Mesmo que tenhamos que perder, no fim ganhamos algo! Honestamente, o que mais senti lendo isso foi esperança! Lindo demais!

Beijosss

Erika disse...

"Mas é tudo novo de novo"
A graça da vida é essa. Em meio ao furação e a destruição, a capacidade de um novo renascimento. De fazer tudo novo de novo, de novo e de novo.
Por mais que a pessoa no espelho não pareça, no fundo ela estará sempre lá, revigorada, mudada, reconfigurada, mas o novo sempre parte do velho. Nada nasce do nada.
Tudo na vida é muito relativo já diazia Albert. Por isso, talvez esse não seja o refúgio do mundo lá fora, mas o sim a prisão do mundo de dentro.

Sei lá... alguém ainda ai? kkkkkkkkkkkkk

Papo de bebada.

Até

Natália disse...

Tadinha da bichinha, toda sozinha no mundo.
Fiquei até meio melancólica.

Beijo, Lore

Leandro Neres disse...

Senti um vento gelado, aquele mesmo depois da tempestade, sons de pássaros, as folhas das árvores balançando e uma calma, um aconchego debaixo do cobertor. Esse caos me fez sentir uma certa paz...

Beto Canales disse...

Muito bom

tiago.augusto disse...

Lindo texto, Saumensch! XD
bj.