domingo, 19 de abril de 2009

20 e poucos anos


A primeira vez que tive consciência de alguma coisa parecida com a idade adulta foi no meu aniversário de 18 anos. Acho que porque já é de praxe nos aniversários de dezoito anos de qualquer cidadão brasileiro lembrá-los de que é nessa idade em que começam os nossos "plenos poderes": podemos entrar em boates, comprar bebidas, dirigir, trabalhar com carteira assinada, casar, ser presos, responder pelos nossos próprios atos, sem ter que pedir permissão oficial. A permissão começa nessa idade (pelo menos na teoria). Mas com 18 anos nós ainda somos adolescentes crescidos, com uma grande vontade de viver mas sem a coragem de encarar a vida real. Ainda somos os adultos do futuro.

Chega um momento, porém, onde deixamos de ser o futuro para nos tornarmos o presente. Acontece. De repente entramos na faculdade, mundo novo, ambiente novo para muitos, novos amigos, novas relações, novas experiências... E o medo de entrar nesse mundo das possibilidades que, dessa vez, são reais. Assustados, nos apegamos uns aos outros, criamos laços e afeição. E pela primeira vez na vida, a afeição pode nos levar a algo mais do que o acolhimento terno da amizade. Pela primeira vez na vida somos responsáveis pelos nossos relacionamentos, pelo destino e rumo que eles podem tomar. Pela primeira vez estamos responsáveis por nós mesmos, e, surpresos ainda, somos chamados a assumir responsabilidade pelos outros. E é com essa surpresa esquisita que vemos casamentos e filhos começarem a acontecer à nossa volta, não com parentes, ou amigos dos parentes, mas conosco e com nossos amigos. São os primeiros que deixam a grande família das amizades para constituir sua própria família, um lar. E como consequência da caminhada, chegamos ao mercado de trabalho, competindo pela vaga de emprego com mais trocentos jovens de vinte e poucos anos, também saídos de boas universidades, tão bem preparados como nós para o emprego a vista. Não existe mais "o primeiro da classe", não existe mais o "filho prodígio", o "exemplo da família"; no mundo adulto, nós somos apenas mais um. E temos que aprender a arte de lidar com a renda, com as contas e com a vida de quem toma conta da própria vida. Ainda despreparados, receosos, imaturos, cometemos erros. E pela primeira vez, desde sempre, somos nós mesmos que pagamos por eles.

São as primeiras de muitas vezes de uma vida que parece que se inicia, guiada pelo instinto. Às vezes me sinto exatamente como um bebê recém-nascido, experimentando tudo com ânsias de novidade, aprendendo a ver, a ouvir, a reconhecer os sinais do mundo. Aprendendo a andar, ora tropeçando e prontamente me reerguendo. Até que um dia a caminhada será mais fácil, menos assustadora, não perfeita, mas com certeza mais segura.


E então saberei: eu cresci.


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Gente, ando sumida, eu sei. Mas aos poucos vou voltando... beijos.

14 comentários:

Kenia Cris disse...

Olá Lorena! Estou começando a te acompanhar de verdade agora, mas já leio vc há algum tempo e simplesmente adoro o jeito como vc escreve. :) Estarei por aqui sempre, se não se importar. Abraço apertado cheio de bons desejos!

Maíra disse...

Com 18 ainda era terceiro anista, responsabilidade quase nenhuma... mas universidade traz novos ares para nossa vida mesmo. E ali vamos crescendo e paro por aqui, porque ainda não sei como será daqui pra frente ;D

Boa noite!
Beijooos!

Lu. disse...

Não existe mais "o primeiro da classe", não existe mais o "filho prodígio", o "exemplo da família"; no mundo adulto, nós somos apenas mais um. Pois é! Acho que é bem comum sentir-se assim! Pelo menos, eu me sinto da mesma forma. Parece que não tenho mais referenciais, que meu reconhecimento de estudante, colega, filha inteligente foi, finalmente, posto em xeque. O início dessa fase pode até mesmo ser traumática para alguns, mas é bem relaxante saber que mais adiante a ansiedade por ter algo familiar às experiências passadas será correspondida por outros referenciais.

Estamos crescendo, Lore! Finalmente!

Beijos

Du disse...

Lore, lamento dizer que às vezes, esta sensação de "não ter crescido", nunca passa! Eu já sou adulta há taaaanto tempo, ainda me sinto completamente frágil em relação às responsabilidades e conquistas. A gente vai seguindo em frente, como deve ser, mas o coração continua como uma criança, sem entender muita coisa... É.

Beijos, boa semana pra você!

Líviarbítrio. disse...

Faço minhas as palavras da Du.
Nunca senti que cresci, talvez por não querer crescer. Isso me apavora, me dá certo medo que não controlo. Considero-me bastante responsável diante das responsabilidades, mas mantenho um ar de criança para absorver, sei lá.

O fato é que temos medo de crescer.

Beijos, Lore.
Obrigada pelo seu comentário lá na Mera. ;)

Camila disse...

Linda Lores,

Continuo com essa sensação de não ter crescido ainda, talvez porque ainda estou na faculdade, ou porque moro com meus pais, ou porque vivo de mesada, ou por tudo isso junto. Fico me perguntando que horas vou virar adulta, que horas vou ser a única responsável por mim e que horas vou ser responsável por outra pessoa. Talvez eu já tenha até idade para ser adulta, mas, não, ainda não sou e sei muito bem disso. Mas também sei que isso vai acabar acontecendo. E não tenho pressa. Pelo menos ainda não.

Miss you!
=***

Fabiana Farias disse...

E quando chegamos a idade adulta e vemos que nada é como imaginávamos quando crianças. Dá aquela vontade de voltar e ficar na infância por mais tempo, talvez para sempre. Pelo menos no meu caso, quando era criança, sempre imaginava a vida adulta como se eu me tornasse outra pessoa. Mas o tempo passou rápido e vi que era eu mesma, apenas mais velha.
Beijos!

Carlinha Abreu disse...

Lorena, você está demorando a postar, mas um texto com esse, faz valer a pena a espera rsrs

Eu acredito que, com 20 e poucos anos, não nos tornamos adultos. Como você disse: também me acho um bebê recém-nascido. parece que tenho que aprender tudo, a ser responsável, a conquistar meu lugar, ser independente, lidar com minhas escolhas e aprender com meus erros. Até como nos relacionamos com os outros muda, porque é hora de criar consciência de que somos responsáveis por aquele que cativamos. Não dá mais pra fugir. E é difícil.

Aliás, pra mim, esses 20 e poucos anos estão sendo difíceis, acho que tô mais perdida na vida do que aos 18, 19. Mas a gente aprende sempre, né!

Adorei demais o post!
Beijão

Su disse...

Creio que todos nós queremos chegar aos 18 anos para ter a tal liberdade de sair sem dar satisfação a ninguém, para ser o dono da própria vida. Mas quando chegamos a idade adulta nos sentimos crianças e passamos por todos as sensações infantis. É tão difícil crescer e começar a encarar certas coisas. Parece que quando damos de cara com a realidade do crescimento ficamos meio que assustados... Mas, temos que crescer, precisamos disso.

Lindo texto, Lolli!!
A imagem está perfeita!!
Saudades de vc...

O mais difícil de crescer é termos que lidar com a saudade!!
Beijos no seu coração!!

Nina Roberta disse...

A gente cresce né Lora, mesmo quando a gente nem tem vontade...
É o tempo e as suas mudanças!
O jeito é se jogar na vida com a cara e a coragem e ver no que dá. heuehuhueh

Beijo Lora. Saudades.

Éverton Vidal disse...

"no mundo adulto, nós somos apenas mais um."

É o que mais me chamou a atenção no seu texto... Isso até me fisgou e eu fiquei a pensar. Porque é verdade mesmo. Fora do cercadinho onde crescemos nós somos só mais um, e aprendemos na marra a lidar com isso. Às vezes nem aprendemos!

Eu até hoje me sinto um recém-nascido largado no mundo. Às vezes até o pé não encontra o chão. Mas tem chão sim, e tem céu também. É uma experiência doida. A vida é isso.

E o título me fez pensar que era seu aniversário. Né não né?

Letícia disse...

Sim, Lori. Nós crescemos. Me dei conta disso também. Todo dia me dou conta disso e ando feito o Bono Vox: I'm still a child and nobody tells me so." Porque ser adulto é difícil. Relacionamentos, respostas, responsabilidades... ouça a música Numb, do U2. Minha nossa. Tem tudo a ver com o seu texto.

E você não está sumida. Você escreveu. Saber a hora também é questão de maturidade.

Luv u. =)

tiago.augusto disse...

pois é...
eu tb, ora me assusto, ora me vislumbro, ora tropeço, me levanto, e assim a gente vai crescendo... não é fácil, e é ao mesmo tempo assustador e prazeroso.
=]

Nando Damázio disse...

Ai, Lore, assim bate a deprê! haha
Brincadeira, mas é que seu texto é tão tocante que vai lá no fundo mesmo, fala exatamente ao coração, faz pensar um bocado...

Ainda mais eu que acabei de deixar a fase "vinte e poucos anos" e acabo de entrar na de "vinte e tantos anos". Afe!

Lô, quando a saudade bate eu retorno pra rever os amigos, meus bons amigos virtuais. Hoje eu estou lá no blog da Du, quando puder dê uma passadinha lá.

Beijão, muito do coração, com saudades imensas.