quinta-feira, 15 de maio de 2008

Espírito Santo


Imagine um lugar com praias lindas, geladas pra burro, mas cheias de calor humano, surfistas, turistas, música, água de coco e camarão frito... Agora pense numa paisagem montanhosa, com um clima mais temperado, com pinheiros e plantações de morango, casas no estilo alemão e pessoas no mesmo estilo, inclusive falando alemão, escrevendo alemão, cantando e dançando alemão... E seu falasse que as duas paisagens estão no mesmo estado e, pasmem, são separadas por menos de 50 km de distância? Parece improvável, mas isso é Espírito Santo. Na verdade, a distância real entre Vitória, a capital ensolarada e quente, e a região montanhosa de Domingos Martins é de aproximadamente 45 km; tão diferentes e tão próximas, como tudo na cultura desse estado tão diverso.


Vitória


Pedra Azul - Domingos Martins


Apesar de ter sido um dos primeiros estados brasileiros, já que teve sua origem na capitania hereditária do Espírito Santo, a colonização capixaba não foi primordialmente portuguesa. Isso porque o estado ficou abandonado por mais de um século, na época da corrida pelo ouro de Minas Gerais, e só voltou a crescer e se desenvolver realmente no fim do século XIX, com a chegada dos imigrantes europeus. Italianos, alemães, pomeranos (vindos da Pomerânia, hoje região da Polônia), são as nações-base que compõem a árvore genealógica do povo capixaba. Atualmente estima-se que 60 a 70% da população do estado possui ascendência italiana ou alemã, ou ambas, como é meu caso. A população negra também é grande e forte, principalmente no norte do estado. A influência desses povos é marcante não somente nos traços físicos da população, mas vai desde a culinária típica aos valores da sociedade, de um modo geral.

Comida típica do Espírito Santo não é só a famosa moqueca capixaba (o resto é peixada, é o que muitos dizem). A influência italiana é marcante, não tem essa família capixaba que não coma uma polenta com frango aos domingos, não dispense um queijo curado ou não tenha sempre uma garrafa de vinho à mesa. Existe também a Torta Capixaba, feita de palmito e bacalhau, que é a nossa “comida de sexta-feira da paixão”, e apesar de sofrer variações de família pra família, é comida de norte a sul do estado nas festividades da Páscoa. Além disso, e como se não bastasse isso tudo, a maioria das festas típicas do Espírito Santo são relacionadas a comida: é a Festa da Uva, Festa do Morango, Festa da Polenta, Festa do Vinho, Festa do Imigrante Italiano (que só tem comida), a Sommerfest alemã (que adivinhem? tem um monte de comida!), ou seja, o capixaba se alimenta bem (ou muito, você decide).

Festa da Polenta (delícia!)

Assim como a alimentação é uma parte importante da cultura local, a religião e as manifestações religiosas também o são. O que não falta no estado é opção, para os mais diversos tipos de adeptos. Se católico, o fiel tem a opção de visitar igrejas antigas, construções belas como a Catedral de Vitória e o Convento da Penha (de onde se tem uma visão privilegiada da cidade, diga-se de passagem). Se protestante, pode visitar o templo Luterano de Domingos Martins, cidade colonizada por alemães, que adota a religião luterana como oficial. É forte também a presença da Igreja Maranata, que por sinal começou no estado, e hoje existe em todo o Brasil. Mas se você não é cristão, não fique triste! No Espírito Santo você também encontra um mosteiro Zen-budista, o primeiro da América Latina, localizado em Ibiraçu (pertinho de Vitória, como tudo), além de uma diversidade grande de religiões afro e espírita, entre outras. E vale a pena conhecer esse “caldeirão” cultural e religioso, eu pelo menos acho uma parte muito bonita da cultura espírito-santense.

O povo capixaba é alegre e chegado numa festa, mas a música capixaba não é tão conhecida assim fora de lá, o que não impede que o Espírito Santo conte com grandes cantores e grupos, e uma diversidade de estilos musicais, próprios ou “apropriados”, mas ainda assim muito populares. Na região litoral do estado, principalmente em Vitória, Vila Velha, Guarapari e adjacências, o que se ouve é o reggae e o congo. As bandas de congo são conjuntos musicais típicos do folclore capixaba, herança deixada por algumas tribos indígena, misturada a influências africanas e letras de cunho religioso. Hoje em dia o congo anda pop, incorporando à sua batida característica as distorções de guitarra elétrica e letras românticas, mas que também tratam das belezas e da história capixaba. É ouvido nas rádios, virou música popular, é tocado nas praias e dançado entre os jovens, e acho que ficou relativamente conhecido nacionalmente com a banda Casaca. A casaca é o principal instrumento do congado capixaba. É um “um cilindro de madeira — numa de cujas extremidades se esculpe uma cabeça — escavado numa das faces, em que se prega uma lasca de bambu com talhos transversais, sobre os quais se atrita pequena vara ou haste de pau.”. Já na região interiorana do estado o que toca mesmo é o sertanejo, principalmente o de raiz, mas alguns mais populares também. Toda festa na “roça” (como dizemos) conta com a presença de um sanfoneiro, que anima os bailes. E como são animados! Geralmente só acabam de manhã...

Tambor e casaca.

O povo capixaba é um povo muito “próprio”, digo eu... Muitas pessoas o taxam de antipático, fechado, taciturno, “difícil”. A verdade é que a sociedade lá é muito centrada na família, com seus núcleos grandes, porque uma família capixaba se estende a todas as pessoas que dividem o parentesco. É comum, se você é capixaba, conhecer o tio-avô do primo do seu primo... Vocês provavelmente moram no mesmo bairro, que foi fundado por umas três famílias apenas, grandes suficientes para povoarem uma vila e darem origem ao povo dali. É assim comigo, com o bairro onde a família mora até hoje, em que metade do lugar é meu parente e a outra metade é parente dos meus parentes. Essa é a estrutura daquela sociedade, é familiar e de núcleo forte, o que acaba mesmo dificultando a entrada de alguém de fora nesse meio. A família é extremamente importante, ela vem em primeiro lugar sempre, e são os primeiros amigos que você tem (muitas vezes os únicos). Então essa fama de “gente fechada” não é questão de antipatia, mas de cultura, e é só se esforçar pra quebrar o gelo, que o coração do povo é imenso!

Gente famosa que faz parte desse povo:

- Carlos Imperial - ator, compositor, apresentador de TV e cineasta
- Rebeca Rezende - atriz, cantora
- Danuza Leão - jornalista e escritora
- Elisa Lucinda - atriz, cantora e poetisa
- Franklin Martins - jornalista
- Nara Leão - cantora
- Roberto Carlos - cantor e compositor
- Rubem Braga - escritor, poeta e jornalista
- Stênio Garcia - ator

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Quando me dispus a postar nessa blogagem coletiva não sabia se iria ser fácil ou não falar de um estado que eu deixei pra trás aos 9 anos de idade, de um lugar que não é minha casa física há quase 15 anos, um lugar tão pequenininho e quase-desconhecido, espremido ali entre três “super-estados” do Brasil... Mas falar do meu estado pra mim é como falar da minha família, Aliás, é exatamente isso. Eu vejo o Espírito Santo como o meu lar, para sempre, cresci naquelas praias e montanhas, em uma família tão grande como só a família capixaba sabe ser, e sua importância está enraizada em mim. Sinto orgulho de ser de um estado onde a qualidade de vida é tão alta e a diversidade cultural é tão própria, onde pequenos valores são tão importantes e certas manifestações são preservadas há centenas de anos, intactas. E toda vez que vejo a baia de Vitória, inspiro forte o cheiro de sal do mar, assim que chego à cidade, meu coração palpita mais forte como quem diz: “voltei para casa”.

19 comentários:

Leandro Neres disse...

Nossa Lorena, viajar pelo teu estado com teu texto foi maravilhoso... Foi como viajar pela história de eternos amigos que fiz no RS... Domingos Martins é a terra do Tieles, do Bull, do Pagung, do Bold, Radinz, e a lista segue adiante... Ainda tem a festa de casamento, que numa aula eles enceneram todo o ritual, o cortejo, muito divertido e único... A canjica na sexta feira da paixão tbm falavam bastante...
Sobre a questão familiar eu entendo bem... Eles são bem assim mesmo... São unidos entre si, uma grande família mesmo... Apesar, que como vc mesma disse isso pode ser um impecilho para quem quer entrar na famíia, sei de dois amigos que não conseguiram meeesmo consentimento para casar com suas amadas capixabas... Uma pena, mas, cultura é assim, muito dificil de se romper com algo que vem de anos de tradição...
Eu criei uma relação especial com os capixabas depois de ter morado na mesma republica por dois anos com eles... O bom é que quando eles te "adotam" como alguem da familia capixaba é muito bom, muita cumplicidade e amizade...
Os pomeranos também faziam sucesso na faculdade... O Nass, o Bull e o Pagung eram típicos pomeramos, falavam em pomerano entre si e sempre procuravam falar sobre seus valores e culturas para nós!
O Congo! Fiquei muito curioso para ouvir deste estilo musical, sinceramente, não faço a menor idéia de como seja, rsrs...
A casaca eu tinha visto uma vez tbm... Interessante este instrumento musical... Quero ouvir a banda tbm...
Bom, brigadão por teu texto... Gostei mesmo!!!
Beijão
Agora, vou preparar o meu... rsrs
Namastê!
Leandro

Georgia disse...

Eu conheco o Espírito Santos, eu conheco Vitória e conheco uma cidade no interior que se chama Celina.
Sua cidade é linda. Eu adoro o moqueca dai, os peixes, as pessoas, o sol, o verde. É lindo demais tudo isso!!!

Abracos

Crys disse...

Com tanta beleza pra ser mostrada, do nosso lindo Brasil, essa blogagem veio na hora. Não conheço Espírito Santo, mas a vontade é grande, que sabe não faça parte de um novo roteiro de férias. Um abraço!

Amigao disse...

Tenho grandes recordações do ES.
Minha familia tem casa em Coqueiral de Itaparica - Vila Velha-ES.E lá passei grandes momentos da juventude.
Guarapari, Vitória.
Praia da Costa...
Sem contar de Madalena, lá na praia do Jucu...
E aquele peroá, recem pescado, frito, que delicia.
Sem contar que dizem, o ES é o quintal de Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Madalena, Madalena,você é meu bem querer, eu vou contar pra todo mundo que eu só quero você...
Beijão do amigão

Jhoy disse...

Ahhhhh, agora eu quero conhecer! rss
As festas devem ser demais! Acho legal quando se mantém tradições assim.
Adorei teu post. Viajei junto.

;**

Andréa Motta disse...

Muito obrigada por nos mostrar as belezas capixabas!

NANDO DAMÁZIO disse...

É assim que me sinto em relação ao Paraná, um filho pródigo !!

Achei bem interessante os paradoxos do Espírito Santo, parece vários locais reunidos em um só .. Diversidade é a maior riqueza desse País, afinal !!

Beijão, Lô !!

Jacinta disse...

Menina,
sou daqui, do Espírito Santo de Deus, lugar dos contrastes que você tão bem descreveu nesse texto. É, essa blogagem coletiva, além de apresentar um pouco do Brasil, também está se propondo a fazer um carinho na alma e na saudade.
Um abraço

Ronald disse...

Lorena, veja a importância desta blogagem. Estou conhecendo lugares e costumes que nunca imaginei existir. Um post feito com carinho que nós lemos com emoção.

Tenha um ótimo final de semana

Éverton Vidal disse...

Caramba Lorena eu realmente nao sabia nada sobre o Espírito Santo. Nada mesmo! Foi ótimo conhecer esse Estado.

A cada texto que leio dessa blogagem, percebo o quanto o Brasil é diverso, mil Brasis dentro do Brasil. Que legal isso nao é?

BJ!
Inté!

GR disse...

Seu estado tem um ar de misterioso.. não é um lugar escondido, talvez somente, "espremido entre três 'super-estados' do Brasil"!
Mas que pela sua descrição apaixonada pelo lugar, dá uma enorme vontade de conhecer!
Eu em particular, me senti atraído em conhecer a cultura, os lugares, e os costumes familiares do ES...

Acho q o mistério do lugar vem daí: como se fosse uma máfia q acolhe só as pessoas próximas.
Mesmo assim, vale o desafio: conquistar o coração de pessoas tão fechadas em sua família. Vitória está, com td cerveja, no meu roteiro de viagens!

http://d--mentes.blogspot.com/
O mundo está no Brasil

Agda Gabriel disse...

Adorei muito conhecer a historia, contada magnificamente, do Espirito Santo. Não sabia nada disso, alias estou descobrindo atraves dessa blogagem coletiva, lugares lindos e maravilhosos. Muito importante esse tipo de iniciativa dos blogueiros, a gente viaja sem sair do lugar. Amei. Beijoas

Sonia H. disse...

Lorena,
Amei o teu post! Realmente eu pude imaginar as tuas descrições e fiquei com imensa vontade de conhecer estes lugares.
Morando tão perto do Espírito Santo, preciso conhecer estas belezas e riquezas culturais que você nos mostrou.
Muito obrigada e parabéns!

Agda Gabriel disse...

Voltando pra falar sobre seu comentario no me post. Garota descolada, articulada como ninguém, cheia de vida e de conhecimento, espetacular na escrita, dona da propria vida...você só precisa acreditar em tudo isso! Nada de medo. Uma Lorena não tem medos, ela se protege, mas age qdo é preciso. Ela sabe que é soberane em sua vida e escolhe seus caminhos com o poder das atitudes vindas do coração. Lorena só será feliz qdo entender que o poder esta em suas proprias mãos. Que a sua vida lhe pertence integralmente. Que nada nem ninguem tem procuração para decidir por vc, questões relativas ao saeu interesse... Faça o inimaginavel para ser feliz....esse dia tarda,mas não falha, so depende de vc! Beijos querida;

Adriano Caroso disse...

Belo,belo, belo, belo... Fiquei morrendo de vontade de conhecer melhor o Espírito Santo. Digo melhor, porque uma vez, indo de carro pra São Paulo, parei em Vitória para almoçar. Comi uma muqueca capixaba. A baiana dá de dez, mas de resto, fiquei encantado. Parbéns!
Tem um presente pra você no meu blog.
Beijos

Crítica e denúncia disse...

stou adorando esta viagem pelos blogs participantes, pena que cheguei tarde e não pude participar. Foi uma grande idéia esta de mostrar o nosso Brasil, para quem mora no exterior como eu, ver esta imagens me emocionam.
Deixo aqui um grande abraço e parabens.
Alda

Thais disse...

Lóris! Próxima vez que você for ao Espírito Santo, me leva na sua mala?????
Não sabia tanta coisa demais!! Tenho uma amiga que morou aí um tempo, mas logo se mudou, nem a visitei =(
E a música? Quero ouvir! E quero ver e secaaar de tantas fotos!!! =D
Gostei da parte da família.. Será que eu devia ter nasciso no Espírito Santo? hahahahaha, sempre quis essa coisa de família grande!!

Fernanda disse...

Sou capixaba, sempre morei aqui. Seu texto é maravilhoso. Mas confesso que não gosto de morar aqui. As pessoas são extremamente reservadas, é muito difícil de fazer amizade, acho o povo aqui mt antipático.. Vitória é um lugar legal pra visitar porque pra morar.. Vc não tem opção de lugares para sair. Existem 3 lugares: casa clube, triângulo, rua da lama. E olha que o povo que frentquenta esseslugares se acha TOP por freqüentarem esses lugares. É até engraçado. Mas respeito sua opinião e sua paixão pelo estado.

Anônimo disse...

já pensou em escrever todo os testos