domingo, 15 de junho de 2008

Para Maria da Graça

"Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.


Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?"
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gato se fosses eu?"
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: "A minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo" Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.


E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuido tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor`.
Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça."

Paulo Mendes Campos

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* fotos retiradas do Flickr.

13 comentários:

Francine Esqueda disse...

Olá!? Adorei passar por aqui!
Muito bom esse post! Sabe que esses dia estava pensando em reler todas essas histórias... Alice, o pequeno principe... e mais um milhao de contos!
Tenha uma boa semana!
Beijos...

Francine Esqueda disse...

Ah, hoje falei sobre você!!
Obrigada outra vez!

Éverton Vidal disse...

E te confesso que tinha (tudo bem, ainda tenho) um certo receio com o Lewis Carroll (faz parte de uma teoria conspiratòria hahaha). Mas confesso que se tivesse lido esse livro com essa mentalidade aí, teria sido uma experiência melhor ein.

É vivendo e aprendendo (ou des-aprendendo).

Bj Lorena. Boa semana.
Inté!

Susanna Martins disse...

"...é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor."
Não sei até onde vai esse perigo, mas às vezes me sinto andando numa estrada cheia de espinhos e sentindo uma dor incontrolável... creio que talvez seja a solidão!

(Seu pai dá aulas? De que? Caramba!! é coincidencia demais!)

Abraços
Boa semana

Cristiane Moreira disse...

Oi Lorena!!!
Estive visitando o "Bilhetes" o blog do Neres e tou passando por aqui também...

Tou lendo "Aventuras de Alice no país das maravilhas" e esse texto veio em boa hora.

Me falaram da tal teoria conspiratória ( nem vou dizer que foi o Vidal... rs ) mas estou amando o livro e o recomendo pra quem gosta do estilo.

Parabéns pelo blog, os textos são de muita qualidade e bom gosto.

Beijos!
Fica na paz!!!

:)

Jhoy disse...

Aí fico pensando nas histórias que não conheci "de verdade" quando criança...
São ótimos conselhos, e o último me acertou em cheio: já passei tantas vezes da fronteira da dor, e algumas vezes fui tão longe que precisei de resgate.
Adorei teu post Loli!

Abraços guria!
;**

Thais disse...

ai que texto liiiiiiindo, lindo, lindo!!!


ah, Lóris, não sei quem é você total-totalmente, sei que meu coração gosta de vc!

e como corremos, em buscas tão nossas, tão necessárias até, mas que nossas buscas não nos impeçam de ver as belezas pqnas da vida..

espero que seu projeto tire nota 100!!!

Leandro Neres disse...

Puxa, legal esta visão e interpretação sobre este livro e sobre o autor, o qual prefiro não citar o nome porque não consigo admirá-lo e respeitá-lo de forma alguma...
Porém, teu texto é uma fonte de luz em meio a esta escuridão que muito propagam em torno deste autor, sua vida e mensagem...
Gostei...
Vou tentar ler mais sobre ele, engolindo meus preconceitos e abstraindo o que é bom! =)
Vlw
Bjs

Lorena disse...

Gente... qual o problema com Lewis Carrol?? Eu realmente queria saber...

Pra mim, não importa a vida pessoal do autor, mas a contribuição dele para a sociedade, a genialidade da sua obra. Se fosse me ater às coisas tortas das vidas daqueles que admiro... =)

Leandro Neres disse...

Ta, neste processo de reaprendizagem, de abertura e rompimentos com meus estigmas andei lendo sobre Lewis Caroll, codinome para o reverendo Charles Lutwidge Dogson, e sua relação com Alice, que na vida real se chamava, Alice Liddell, uma menina de sete anos. Andei lendo algumas coisas e um artigo mais equilibrado ajudou-me a reconstruir algumas coisas... Ao que parece o reverendo possuia alguns traumas com relação a sexualidade, de fato, porém, estigmatizá-lo como tal talvez seja um equívodo. Pois não se sabe o que de fato ocorreu e sua obra Alice no País das Maravilhas me parece mais como um belo e genial gesto de sublimação e superação do que obra de um maníaco pedófilo qualquer...
Fico com a frase de Katie Roiphe, que escreveu um romance sobre a relação entre Lewis e Alice, ”Ele tinha pensamentos, impuros, sim. O que importa, no fim, é o que ele fez deles.”

O link para o artigo é este:
http://diganaoaerotizacaoinfantil.wordpress.com/2007/09/10/a-eterna-duvida-sobre-o-autor-de-alice-no-pais-das-maravilhas/

Bjs e mais uma vez obrigado pela postagem!

Leandro

Lorena disse...

Olha! Eu não sabia dessa outra face de Lewis Carrol, a do pedófilo... Se for verdde (o que parece ser, pelo artigo), é triste sim. Mas ainda não tira o mérito da obra. Até loucos, psicopatas, assassinos, perversos podem ser geniais, capazes de escrever, pintar, tocar, unicamente... E o livro e a história de Alice continuam sendo fascinantes, independente dos podres do autor e do que o possa ter levado a escrevê-lo.

Eu, por exemplo, ainda ouço Michael Jackson e ainda gosto! =P

Andreia disse...

Olá Lorena, Cheguei até vc pelo blog Re-Novidade e adorei. Teus textos são riquíssimos.
Esta interpretação de Alice está divina! Pena que quando crianças não conseguimos alcançar a profundidade dos ensinamentos desta obra.
Beijinhos, foi muito bom passar por aqui. Voltarei mais vezes...

Deusiane disse...

Que espetáculo de texto! =DD