quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Chuva de Sapos




Acordo de manhã, lá pelas 08:00, todos os dias religiosamente, mesmo que enrole na cama para levantar. Levanto, escovo os dentes, tomo banho e sento na frente do pc (que costuma ficar ligado a noite toda, é um hábito que eu tenho que deixar). Ando por aqui enquanto me arrumo pra sair, faço duas, três coisas ao mesmo tempo, sem prestar muita atenção à nenhuma delas. Tomo café correndo, já atrasada, sempre com a cabeça em mais de uma coisa, o que sempre me faz esquecer algo pra trás, voltar a abrir a porta e buscar o que quer que tenha sido que eu esqueci (isso quando me lembro que esqueci). Saio no meu passo rápido, sem olhar para os outros, com fones de ouvido em volume alto, e passo o dia repetindo ações atrás de ações, sem me ater exatamente a nenhuma delas ou quase nenhuma. Volto depois das seis (quando não dou aulas à noite), tomo banho, como qualquer coisa e volto aqui pra frente do pc. Todos os dias.

Eu, assim como tantas pessoas com quem literalmente esbarro nas ruas cheias da minha cidade, ando olhando para o nada e nunca para os lados, nunca para os outros. Raramente enxergo os pais que passam apressados, levando os filhos pequenos no colo ou pela mão, a caminho da creche ou da escola, onde vão deixá-los enquanto estão no trabalho. Eles também não estão olhando para mim, absortos nos pensamentos de serviço, contas, salários, contas, problemas de saúde e mais contas. Também não estão olhando para os filhos, nem para o caminho que estão fazendo, têm sorte de seus pés já conhecerem as calçadas esburacadas de cor. Já as crianças, essas sim olham para a vida com olhos gulosos de quem quer absorver tudo, viver verdadeiramente. A rotina ainda não faz parte da rotina delas, o mundo ainda é um grande circo incrível, uma ilha do tesouro onde tudo está para se descobrir. Acho que por isso nós temos tantas lembranças da infância e tão poucas do mês passado. Afinal, o mês passado foi igual ao retrasado, que foi igual ao mesmo mês do ano anterior... E desde quando a vida é assim, essa seqüência de momentos que se repetem mecanicamente?

E da mesma forma que se repetem os momentos, se repetem valores, idéias, verdades... O passado se repete no presente, indefinidamente. Por que? Se somos capazes de mudar o presente, por que não o fazemos? Entramos num ciclo vicioso onde é mais fácil (ou assim o parece) continuar a viver aquilo que estamos acostumados, a monotonia do que já vem acontecendo, do que parar e dar meia volta... Poucos são os que o fazem. Mais fácil aceitar a condição imposta, o valor vigente, a vidinha mais ou menos, a rotina do dia a dia... E a gente vai se arrastando pela vida, porque nem consigo chamar esse ato de "viver", que pra mim engloba mais do que essa repetição cega.

Mas eis que um dia nos acontece um chuva de sapos*, assim como no filme. Você pode chamar de acaso, destino, coincidência, Deus... Mas algo acontece na sua vida que te faz enxergar que as coisas não tem que ser como vêm sendo. Não tem porque andar em cima do trilho que já veio sendo trilhado... Você é livre pra descer e fazer o que bem entende da sua vida. Principalmente tentar melhorar no que for possível. Lamentamos da vida porque somos seres eternamente incompletos. Mas um dia pode nos acontecer algo que realmente seja motivo para lamentar, um desastre, um encontro inusitado, estar face a face com a situação que mais tememos... E incrivelmente, então, não lamentamos. Somos pegos com tal surpresa que não lamentamos, mas olhamos para trás e analisamos profundamente o que vimos fazendo, e que droga de vida é essa a que eu me acostumei?

Não somos obrigados a seguir o caminho pré-determinado nem precisamos passar por essa vida acumulando número recorde de tarefas por unidade de tempo. Isso não é viver, é se enterrar vivo no universo paralelo que é o cotidiano moderno. Mas todos somos livres para sair do casulo, ainda que para isso precisemos ser vítimas de uma tempestade de sapos bem gordos. No fundo, eles são apenas o catalisador de uma mudança que já é necessária. Que venham os anfíbios, então.




















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* Referência ao filme "Magnólia" (1999), de Paul Thomas Anderson.

14 comentários:

Leandro disse...

Um comentário incompleto para um texto sincero, significativo e belo...
Bela trilha para um post conotativo e reflexivo. E foi muito bom estar um pouco contigo nesse cotidiano e nessa busca pela mudança. Sei que teu texto tem muito mais e vi muita coisa. Mas fico com o aprendizado para mim e com o desafio de saber mudar diante de uma chuva de anfíbios. Lindo texto, e com essa música ele vai lá... E preciso ver este filme que tanto relutei em alugar...
Bjos!
Leandro

Camila disse...

Que reflexão linda sobre o dotidiano. Lendo, vi que também vivo esse dia-a-dia moderno, com essas pessoas automáticas e uma vida programada. Não tenho tempo pra pisar descalça na grama, nem pra parar pra tomar um sovete no meio da tarde, nem pra desfrutar os prazeres de acordar todos dias.

Adorei, Lorena! O texto ficou de uma sensibilidade incrível!

Beijinhos pra você!!!

Du disse...

Chuva de sapos de Magnólia...lembro muito bem daquela fase estranha e reflexiva da minha vida... O livre arbítrio foi império, então não precisei engolir os sapos, foi opção mudar as coisas de lugar, então eu finalmente consegui entender a chuva.

Amo os teus escritos, Lô querida!
Beijão

disse...

Preciso ver esse filme!

Seu texto é perfeito. Mas a vida é assim, quanto tempo passou e nada daquilo que nos propomos a fazer conseguimos fazer.
Vocês são são muito novinhos e com tanta responsabilidades nos ombros.
Tudo o que nos acontece tem um porém, creia, chegará a hora que você vai parar, engolir sapos faz parte, depois você conseguirá entender e verá como foi bom.
Hoje eu olho minha vida e vejo como foi bom.

Vou alugar esse filme.

Seus textos me encantam a cada dia!

Beijos em seu lindo coração!
Tenha um fds iluminado pelo Senhro!

Vovó Rô!

Alice disse...

Não queria ter que esperar pela chuva de sapos. Mas se eles vierem...que eu saiba engoli-los:)Bom...eu sei que é difícil, mas se tomarmos consciência que a vida é mais que uma conta bancária recheada, uma festa de casamento ou um cargo de chefia...já estaremos facilitando a nossa digestão:)

Su disse...

Preciso assistir esse filme...

Eu tbm tenho essa mania de sair pelos meus dias com os fones nos ouvidos, envolvida na minha rotina, sem novas aventuras e infelizmente, mtas vezes sem entender o que acontece!!!
Lindo demais!!
BEijoos, Loreninha

lavanderiavirtual disse...

Este é o segundo texto que leio que fala de reação, mudança, 'esvaziar o armário' das coisas inúteis que acumulamos e vamos adiando a limpeza, as decisões... (lá na Su - adorei).

Acho que deve ser um sinal do Destino! rsrs Bom, é melhor ficar atento, por via das dúvidas.

Lendo seu texto e ouvindo a música me senti num flashback de situações e emoções...

Agora fiquei curioso em relação à parábola do filme, que aliás não assisti.

Beijos!
Juca

Péricles Carvalho disse...

e que talvez dinte do inesperado, diante da chuva de sapos, vc pára pra compreender como as coisas realmente são - vc talvez passe a enxergar as coisas com maior clareza!

adorei o post, venho de encontro com algumas indagações minhas - e Magnólia é realmente um filme muito legal!!!!

acabei me lembrando do filme Crash tb!


super beijo

DrummerChick disse...

O nome disso é epifania. É bem legal, mas deixa a gente meio desorientado. ^^*

DrummerChick disse...

VOCÊ JÁ VIU DAVE MATTHEWS ATUANDO EM DR. HOUSE????

Urbano Leonel Sant' Anna disse...

Pra variar, a Lorena nos traz uma pequena jóia de reflexão e auto-análise que nos serve a todos.

Epifania, revelação, insight, visão, chuva de sapos, crise...
Não é tudo o mesmo no final das contas? Qualquer coisa que surge repentinamente e nos sacode e faz acordar deste estado de autômatos ou zumbis, sem vontade nem reação, a que a vida moderna nos condena.

Não nos deixemos iludir, porém...
É preciso estar atento e propício. Senão podem cair milhares de sapos na nossa cabeça e, ainda assim, mesmo que quase soterrados por anfíbios gordos e verrucosos, não seremos capazes de despertar do transe de inércia autodestrutiva e anticriativa que faz da humanidade dita civilizada a massa amorfa que é.

Beijo, Amélie!

Urbano

Amigao disse...

Sabe que quando assisti o filme eu tive a mesma sensação que estou tendo agora ao ler seu post?
De alguma maneira os sapos estão por ai, de alguma maneira temos que tirar uma lição disso tudo.
E a verdade de tudo é que se eles são sapos gordos que estão caindo sobre nós é pq de alguma forma nós os alimentamos ou não seriam tão gordos.

Belo post,
Desejo uma boa semana pra você
Beijao do amigao

Éverton Vidal disse...

Eu vou voltar para ler esse texto outra vez. Preciso.

Éverton Vidal disse...

Entao, voltei. Ótimo! Nao é viva viver pra executar tarefas pre-determinadas né? A gente precisa do imprevisto, do nao planejado, do descanso... do pensamento que nao pensa em nada.

VAleu pelo texto e pela dica de filme (que filme doido rs).

Bj. Inté!