quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Embargo


For Emily, whenever I may find her.

Era uma vez um cruzamento localizado no meio de uma grande megalópole. Visto de cima parecia uma um grande curativo cor de asfalto, demarcado no solo e rodeado de topos de prédios e tetos de construções. Eram dois caminhos que se intercruzavam e estavam ali desde que a cidade estava ali, fazendo parte do já emaranhado conjunto de caminhos que ela abrigava. No meio do cruzamento, sentada no chão, ela está. Presa ao piche do asfalto e como se parte daquele pedaço de existência desde sempre. Pode mover a cabeça e olhar para todas as quatro vias e encarar o infinito do fim da rua. Pode olhar para cima, na direção dos quatro semáforos, todos eles posicionados no verde que reflete nos olhos, mas não na alma. Pode olhar para as portas de cada construção e enxergar as outras pessoas, as de pés livres, mãos nas mãos, corações que batem compassados, ela tudo isso pode ver. Pode olhar para o céu e até já aprendeu a prever as tempestades que vez ou outra tornam a vida menos silenciosa no seu pedaço de mundo. Não se lembra de quando resolveu sentar no meio do cruzamento, nem de quando resolveu que não escolheria mais o caminho que fosse. Mas tudo na vida acontece por um motivo e largou-se com força naquela via fresca, esperando a felicidade que deveria vir quando deixasse de ter que acolher seus próprios passos. Mas o cruzamento é o deserto vermelho de Antonioni e o pôr do sol já cansa a vista e nem canto de pássaros na rua silenciosa se ouve. Não existe sombra de felicidade no cruzamento parado. Não existe motivo na lembrança de se manter parada na encruzilhada dos seus próprios caminhos. Mas os caminhos existem, sempre existiram, e estão cravados para a eternidade. Basta se desgrudar do piche que te prende e escolher para que lado seguir, um pé à frente do outro. E fazer do infinito o seu destino. E que comece aí a grande busca dourada pela felicidade.

12 comentários:

Leandro Neres disse...

vc, realmente, conseguiu me transportar para uma "realidade" e percebi muito de tua visão de mundo, das coisas, e gostei da melodia de sua redação. Vc está crescendo muito, texto perfeito... Adorei!
bjos!

Nina Roberta disse...

que texto lindo Lora :)

pensei em tantas coisas... mais ainda no quão covarde eu sou em relação a alguns assuntos..
coisas da vida não?

Um beijo.

Glaucia disse...

"Basta se desgrudar do piche que te prende e escolher para que lado seguir, um pé à frente do outro."

Lorena,

Você escreve de uma forma muito pura, livre e transmite isso pra quem lê!

Você descomplica coisas que, na verdade, somos nós mesmo que complicamos...

Adorei! Beijos.

Du disse...

Não existe motivo para não caminhar, um pé na frente do outro. Não existe motivo para o medo além da estagnação dos sentidos...

Lindo texto, Lore!

Cadinho RoCo disse...

Não há dois caminhos iguais.No entanto os sinais são mais do que suficientes para que possamos percebe-los e sentir qual o caminho, entre todos, que devemos seguir. Se der sentido aos sinais dará possibilidade de decifração ao sentimento e por aí o camiho aparecerá nítido, amplo, pleno e pronto para que o passo de cada passo aconteça.
Cadinho RoCo

Amigao disse...

O sinal esta verde, o cruzamento oferece opções.
A escolha cabe a cada um. Mas uma coisa é certa, sempre haverá um caminho, uma direção. Se certa ou não cabe a você escolher.
O que não vale é ficar presa ao piche ali para sempre.

É bom vir aqui e refletir com voce!

Beijão do amigão!

Ju disse...

Tenho tanta coisa pra aprender aqui, Lores. Tanta.

E a felicidade vem mesmo. Eu acredito nisso. Mas tenho medo do infinito.

Letícia disse...

Espero que a Emily tenha lido porque eu li e achei que tem palavras bem unidas que dizem que a vida nem sempre é prisão. É uma busca. Você é sábia, Lori.

E amanhã lá me vou para o concert. Minha nossa. ¬¬

Lov u, dear.

Menino-Homem disse...

aplausos de pé...

tiago.augusto disse...

o/
como vc faz isso só com um parágrafo?
texto maravilhoso!
pq às vezes é tão difícil desgrudar do piche e escolher qual via seguir? bem, pelo menos já sei onde encontrar a Emily... =D

bj.

Éverton Vidal disse...

Era uma vez um cruzamento... Começa que nem um conto de fadas, mas é o conto de uma garota da megalópole. Um conto de fadas real que começa a partir de uma encruzilhada... a partir de escolhas de caminho em busca da dourada felicidade.

Gostei dessa metáfora da encruzilhada como um grande curativo no meio da cidade.

Muita coisa pra pensar. E vc tá escrevendo pra caramba agora. Parabéns mesmo.

Inté!

Fabiana disse...

Lindo!!
E o livro é para quando??
bj