sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Machine Against the Rage

O Oscar passou e eu fiquei quietinha. Até eu senti falta de escrever algo sobre a cerimônia, mesmo esse ano tendo poucos favoritos próprios, tava tudo muito equiparado para eu me meter em um bolão. Ainda assim não deixei de me preparar para o evento, comprei minha SET, assisti aos filmes, convidei amigos e assistimos ao prêmio em pleno domingo de Carnaval. E foi bom e eu fiquei satisfeita com muitos prêmios, principalmente os quatro para atuação, ganharam justamente os meus favoritos. Mais satisfeita ainda eu fiquei com alguns discursos que tive o prazer de assistir naquele domingo à noite. Vários foram, mas dois em especial me deixaram orgulhosa e emocionada. Discursos que falavam de inclusão, de igualdade, de direitos, de tolerância, e de como o cinema pode ajudar no processo de mudança que a humanidade precisa enfrentar para conseguir chegar ao ideal em todos esses aspectos.


"Se Harvey [Milk] não tivesse sido tirado de nós há 30 anos atrás, eu acho que ele gostaria que eu dissesse a todos os jovens gays e lésbicas aí fora, hoje à noite, que são levados a acreditar que eles são pessoas piores, por suas igrejas ou pelo governo ou por suas famílias, que vocês são belos, maravilhosas criaturas de valor e não importa o que te digam, Deus ama vocês e muito em breve, eu prometo a vocês, vocês terão direitos iguais, federalmente, ao longo de toda essa nossa grande nação."


Dustin Lance Black
prêmio de Melhor Roteiro Original por "Milk - A Voz da Igualdade".


"Para aqueles que viram os cartazes de ódio* enquanto nossos carros se dirigiam para cá essa noite, e, eu acho que esse é um bom momento para aqueles que votaram a favor do banimento do casamento gay sentarem e refletirem e anteciparem sua grande vergonha e a vergonha dos olhos dos seus netos se eles continuarem com essa forma de apoio. Nós devemos ter direitos iguais para todos."

Sean Penn
prêmio de Melhor Ator por sua atuação em "Milk - A Voz da Igualdade"


Enquanto dentro do Kodak Theatre o público aplaudia de pé os discursos, se emocionava com as palavras e fazia coro em concordância (e eu vibrava em casa), era isso que acontecia do lado de fora, os cartazes a que Sean Penn se refere:





- "Heath está no inerno", diz o cartaz que uma dona-de-casa, provavelmente esposa e mãe, segura em suas mãos. Ela se refere a Heath Ledger, ator que morreu em 2007 e ganhou o Oscar esse ano, por sua atuação perfeita como o Coringa, em Batman - The Dark Knight. Mas não é a esse personagem, um vilão louco que mata e rouba por prazer, que o cartaz faz menção. Não, ela acha que Heath Ledger está no inferno por ter interpretado Ennis del Mar, um homossexual, em Brokeback Mountain.

- "Você vai para o inferno", "Deus é seu inimigo", "Não abençoado, só amaldiçoado", "Deus odeia você". É isso que diz os cartazes que duas senhoras, já de cabelos brancos, seguram. Pela expressão delas, isso não é uma brincadeira de mal gosto; é realmente nisso que elas acreditam.

- "Deus odeia as 'bichas'", diz o cartaz que o garotinho de, no máximo sete anos, segura de forma displicente. Quem será que o levou para a manifestação? Ou será que ele já sabe, desde pequenininho, quais pessoas deve odiar, em nome de "deus"?
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Enquanto me orgulho de ver uma Academia tão conservadora como a do Oscar, oferecer dois prêmios tão importantes a um filme que trata da importante vida de um homossexual, me enoja ver cartazes com mensagens tão raivosas, contra pessoas inocentes. Enquanto me orgulho de Harvey Milk, alguém que lutou pelos direitos de uma minoria tão expressiva, numa época onde ser homossexual era extremamente complicado (ou seja, o mundo não mudou muito de lá pra cá), me entristece ver crianças sendo criadas em meio a sentimentos tão negativos.

São os paradoxos e as contradições da sociedade em que vivemos... Mas quero, espero, luto para ver um futuro muito diferente do que vejo nesses cartazes. No futuro que prevejo não existem manifestaçõe de ódio contra pessoas, apenas de amor. Nesse mundo, que pretendo oferecer aos meus filhos e aos meus netos, as pessoas terão, sim, direitos iguais. TODOS NÓS, sem exceção de raça, credo, origem, condição sexual, diferença que seja. E, principalmente, as pessoas serão livres para amar e viver como bem entenderem, e haverá respeito e solidariedade e tolerância.

O mundo caminha para isso, a passos lerdos, mas caminha. Porque negar essas mudanças é viver como as pessoas segurando os cartazes. E eu não consigo imaginar que vida tem alguém que leva o ódio não só nas mãos, mas também na única máquina pulsante que poderia lutar contra ele: o coração.

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Achei esse vídeo lindo e resolvi compartilhar com vocês. É de uma campanha de uma ONG americana que luta contra o divórcio forçado dos casais gays que se casaram antes da Prop 8 ter sido efetivada. Para aqueles que acham que o direito da união legal entre pessoas do mesmo sexo deve ser negado, fica a mensagem de amor que essas mesmas pessoas querem transmitir. Não os divorcie.



16 comentários:

Thais disse...

Confesso que mal acompanhei o Oscar. Mas não me surpreende muito esse tipo de manifestação, pq as pessoas tem uma capacidade incrível de ser IDIOTAS. Fechadas. Ignorantes e tão preconceituosas.
E achamos que somos diferente aqui no Brasil?? Nosso país é um dos campeões em violência contra homossexuais.
Lamentável.
p.s. o link do vídeo não carregou aqui, depois vc pode me mandar???
=*

Beto Canales disse...

Muito bem observado. Eu fico tão 'extasiado' que nem ouvi os excelentes discursos. Valeu menina.

Beijo

Beto Canales disse...

Muito bem observado. Eu fico tão 'extasiado' que nem ouvi os excelentes discursos. Valeu menina.

Beijo

Ju disse...

Lores,

Eu não vi a cerimônia, mas acompanhei as indicações e os vencedores...

Sean Pean é o cara. Merecido o prêmio! A interpretação dele salvou o filme, pq eu confesso que achei monótono pra caramba, embora seja inegável a importância do tema e de Harvey Milk...

E adorei que Penelópe Cruz tenha ganho como coadjuvante! Apesar de não ter visto os outros filmes que foram indicados pra categoria, eu adorei Vicky Cristina Barcelona.

É isso.

Saudade!

On The Rocks disse...

lorena,

nunca tive paciência para assistir a entrega do oscar, nem do grammy!

pô, o cara - rsrs - que fez o coringa não ganhou, né?

bj

Lívia Brito disse...

Eu também não acompanhei a cerimônia, e estou sabendo por aqui das manifestações.

Além dos discursos proferidos na cerimônias, as suas palavras também foram muito bem colocadas. E o vídeo é muito emocionante.

Há algum tempo eu achava o homossexualismo anormal, não cabia na sociedade. Com o tempo e, principalmente, o amadurecimento e a convivência me fizeram ver além dos preconceitos que me limitavam.

Acho sim que devemos fazer e ser aquilo que nos faz feliz, isso é o que importa. Somos todos iguais e Deus nos ama exatamente como somos.

Adorei a postagem, muito ;)
Grande beijo.

Natália disse...

A verdade é que esse ano eu não dei a mínima pro Oscar. Acobtece...
Mas, quanto a essas manifestações, só posso dizer que são lamebntáveis.
Ninguém é obrigado a gostar e apoiar o que quer que seja, mas respeito e tolerância estão muito acima de qualquer apreço.

Pelo visto esses manifestantes estão longe de saber o signficado de respeito e tolerância, e mais longe ainda de saber que o valor de uma pessoa não está na sua opção sexual.

Beijos, Lore

Amigao disse...

Lori,
Sabe, o segundo dos dez mandamentos, diz o seguinte:

" Não Tomar o nome de Deus em vão. Pois Ele não terá por inocente aquele que tomar seu novo em vão."

Eu fico impressionado como pessoas sérias, deixam sair de suas bocas palvras rancorosas e cheias de ódios e tem coragem de dizer que estão falando em nome de Deus.
Causam guerras e espalham o ódio e dizem, em nome de Deus.

Ora o Deus que eu conheço é um Deus de amor, como pode seus seguidores odiarem tanto?

Vejo a senhora de cabelos brancos e o menino empunhando cartaz e quem o ensinou quais pessoas ele deve odiar?

bom texto, boa reflexão.
Beijão do amigão!

Letícia disse...

Assisti ao Oscar, Lori. Achei tudo bem igualzinho - como sempre é. Paparicos, gente fingindo não estar com raiva por ter perdido... Mas eu gostei porque a Kate e o Sean eram os meus favoritos. E esse filme Slam Dog vai ser o mais visto em toda e temporada porque é um filme estrangeiro, em língua inglesa e o diretor é britânico e a história é a mesma. Menino pobre, de um país pobre e etc. Vou saber do que se trata quando assistir.

Bjs, Lori.

Du disse...

Lore, eu não acompanhei a cerimônia da entrega do Oscar, mas soube dos vencedores depois. Fiquei curiosa pra ver o filme indiano que ganhou, parece ser bem interessante!

Quanto aos cartazes, lamentável, ainda mais quando envolvem crianças que nem sabem direito o que estão fazendo.

O preconceito é um entrave do desenvolvimento e do relacionamento da humanidade. É uma arma que dói, que perfura, que maltrata. É indiscutível sentir o preconceito e, somente é capaz de percebê-lo quem já sentiu. Além da homossexualidade, discrimina-se por quase tudo: pelo vestuário, pela linguagem, pela cor, pelo credo, pela posição social... Eu só me pergunto até quando o mundo agirá assim...

Fabiana Farias disse...

Oi, Lorena! Não vi o oscar, pois nem tenho esse costume.
Muito triste esse ataque aos homossexuais, mas eu tenho pena mesmo são dos fanáticos que fazem isso.
Ridículo esse divórcio forçado. Que mundo é esse? Guerras são feitas, milhares de pessoas morrem de fome e eles estão preocupados em separar pessoas inocentes que se amam??
Lindo vídeo! Adoro essa música da Regina! A conheci graças a essa música.
beijos =)

Carlinha Abreu disse...

O ser humano cada dia me surpreende mais! Para o pior, infelizmente. Parece que isso não tem fim, essa perseguição, esse preconceito. Triste! Se eu tiver um filho, não quero que ele receba influências desses seres nada humanos. Porque o que mais me incomoda é ver isso passando de geração pra geração, se perpetuando. alastrando. Até quando tanta maldade? Por quê se julgam tão santos só por serem heterossexuais? Grande coisa! Argh! Tenho certeza que o Deus que eu acredito não concorda com estes cartazes.


Pessoas com Harvey Milk merecem um filme mesmo. :)))

Éverton Vidal disse...

Lorena pense num cara que tá por fora dos filmes e do Oscar deste ano. Pra ser sincero o primeiro texto sobre o tema que eu li até agora foi o seu. E olha que sou meio viciado em filmes. Nestas férias já assisti mais de 40.

Valeu pelo post, pelo menos fiquei sabendo de algo (em que mundo eu vivo Deus?).

E quanto ao preconceito, apesar de sabermos muito bem que manifestações do tipo são apenas uma pequena ponta do iceberg podemos ter esperança pois olhando para o passado já podemos ver que muita coisa mudou. Estamos caminho pra frente mana. Graças a Deus.

Abraço!
Inté!

Éverton Vidal disse...

pô, o cara - rsrs - que fez o coringa não ganhou, né? [2]

tiago.augusto disse...

dia desses eu tava parando e vendo o qto eu mudei - ou o qto minha cabeça mudou - nos últimos tempos...
e percebi q eu tenho aprendido (e tenho q aprender cada vez mais) a olhar as coisas pelos olhos de Cristo, e é aí q eu tenho visto o quão lamentáveis são essas manifestações (e isso é um problema, pq o ser humano é uma bosta, e a gente acaba sentindo por essas pessoas dos cartazes o mesmo q elas sentem pelos gays, no caso...).
fico pensando q se os cristãos de fato compreendessem o q jesus queria dizer com o "amar a Deus"e com o "e amar ao próximo", talvez hoje não haveria necessidade de tanta confusão, tanta briga, projetos no senado, leis específicas para determinados grupos (e não falo só dos gays)... enfim...
fico triste com a nossa sociedade, com a raça humana, mas feliz com a esperança de que isso tudo vai acabar um dia...

tiago.augusto disse...

e aos de cima: o cara q fez o Coringa ganhou, uai! =P