quinta-feira, 2 de abril de 2009

Serendipity

1. Good luck in making unexpected and fortunate discoveries.


Sabe quando você é criança e tudo no mundo parece algo novo e excitante? Da concha de um caracol às constelações no céu, do porta-jóias da sua mãe aos grandes prédios do centro da cidade, tudo parece guardar um mistério próprio, uma verdade solene em sua existência, algo que nos faz perceber o quão fascinante é viver todo e cada dia. Crianças não olham para as coisas, elas as enxergam.

E sabe quando você cresce e nunca mais sente essa sensação de êxtase diante da vida? Nada mais é novo e excitante, exuberante, colorido, mágico. Os adultos vivem seus dias em tom pastel. Não olham sequer para si mesmos, quanto mais para o que está à sua volta. Não enxergam mais as pessoas, não olham para o céu, nem para o chão, nem para os lados. Nós, adultos, mal vemos. Vivemos em piloto automático, passamos pela vida apenas. E nunca satisfeitos, porque sempre algo nos rouba a oportunidade da felicidade plena, porque colocamos a felicidade no final da linha, como meta a ser alcançada. E vamos trilhando o caminho com os olhos na recompensa do futuro, os olhos não se desviam do fim. E o fim chega, mas a felicidade não.

O que não entendemos é que ela não é o fim, mas o meio. Se durante o nosso percurso pela vida, nessa nossa casca de adultos ocupados e compenetrados em trabalhos e contas e saldos, créditos, crises externas e internas, pararmos de mirar o fim, de perseguir o futuro e, por um minuto que seja, pararmos para enxergar o presente... Se diminuirmos a velocidade dos passos e desligarmos o piloto automático, e nos permitirmos olhar a vida, simplesmente olhar a nossa volta... Então nós veremos o outono chegando devagarzinho e tornando as tardes mais suaves e aconchegantes, ouviremos os pássaros cantando sua ação de graças na árvore mais próxima, sentiremos o perfume das damas-da-noite em flor que são tão comuns nessa época do ano. Se nos permitimos sentir novamente, nos alegraremos pelo filho do vizinho que passou no vestibular, pelo amigo que conseguiu o primeiro emprego, pelo bombeiro que conseguiu salvar o gato de um prédio em chamas, pelo gatinho salvo, pelo homem que teve seu crânio perfurado por um arpão e continua vivo...

Por um momento paremos e olhemos, com os olhos que enxergam, o mundo a nossa volta. Não o cinza-escuro das desgraças que os adultos inflingem uns aos outros. Vamos olhar o nosso mundo de 10, 20, 30, 40 anos atrás. O mundo que os nossos olhos de criança enxergavam. O mundo onde havia surpresa e emoção a cada descoberta. O mundo onde a magia não era um conto de fadas, mas a forma extraordinária como a vida acontecia. Onde a vida, em toda a sua grandiosidade, era apenas a sucessão de pequenos milagres. E eles continuam acontecendo, todos os dias.
















Basta abrirmos os olhos para ver.

15 comentários:

Letícia disse...

Também acho, Lori. Milagres acontecem todo dia. Não vemos porque, como você disse, somos adultos, racionais e não vemos por partes. A gente enxerga o inteiro e acha que tudo está ruim ou beirando o abismo. Não sou convincente ao dizer que ainda há esperança. Tento seguir, digo a amigos para não se queixarem tanto e, quando vejo, eu mesma estou me queixando. Não aproveito a paisagem. E vem gente e diz que somos idealistas ou românticas. Whatever. Ao menos, acreditamos e vivemos de nossa fé.

É isso, Lori. =)

Always near.

Líviarbítrio. disse...

Enxergar as coisas com os olhos de criança quando adultos é uma tarefa um tanto incomum. Poucos conseguem, e os que não param para respirar estão preocupados com os seus próprios problemas, por isso pouco se emocionam com os "milagres" do cotidiano.

Todos os dias tento enxergar as pequenas coisas com os mesmos olhos de 20 anos atrás. É tão bom.

Adorei o texto, Lore.
Um bom final de semana para você.

Adriano Caroso disse...

Não entendo porque passei tanto tempo sem vir aqui. Aí chego e recebo uma "bomba" dessas pelos peito. Acho que ando vendo a vida em tom pastel ultimamente. Felicidade? Felicidade é ler Lorena todos os dias! Que crise supera tamanho êxtase?

Du disse...

Oi Lore!
Acredito que a maioria das pessoas sejam assim mesmo, mas eu ainda mantenho em mim aquela coisa de criança que tudo olha e tudo vê, de verdade.
Ainda consigo ficar extasiada diante da beleza de um pôr-do-sol ou de uma margarida no chão, ainda consigo ficar maluca quando vejo algodão doce, ainda dou risada quando deveria ficar séria e adoroooooo caminhar na chuva sem sombrinha... essas coisas que as crianças fazem tão naturalmente e com o tempo são esquecidas. Sou assim mesmo, algo em mim se recusa a crescer e confesso que sofro mais sendo assim, porque quando choro, choro mesmo e preciso de colo. Eu sempre fico pensando que se eu fosse diferente, seria mais forte, com o coração endurecido, sei lá!
Só sei que hoje, por mais triste que eu esteja, eu ainda consigo sorrir e agradecer a Deus por todas as belezas que a natureza nos proporciona e por todas as coisas que são tão simples e que a maioria das pessoas nem nota.
Enfim... estamos vivos!

Beijos, bom final de semana.

Carlinha Abreu disse...

É verdade, Lorena. Tanta coisa acontece a todo instante, tantos "milagres", coisas surpreendetes. Por isso as crianças são mais felizes. Não é por não terem que sair pra trabalhar, por não terem que se preocupar com relacionamente, contas, trânsito. É porque elas enxergam tudo com os olhos diferentes. Elas se encantam, se admiram e vive cada dia como se fosse único e como se fosse uma grande descoberta. E o mais engraçado, é que um adulto é quem ensina uma criança a viver, quando deveria ser o contrário! Triste isso! Como diria Exupery: " E nenhuma pessoa grande jamais compreenderá que isso tenha tanta importância!"

Adorei a crõnica! Bom fim de semana!

Beijoooo

Nina Roberta disse...

Ah, mas é lógico que eu conheço "Carrie, a Estranha ", e Deus me livre ser igual a ela. rsrs
Eu acho que tem uma parte de mim que se chama Lorena.
Obrigada pela palavras cabeça.
Tbm te amo.

Carlinha Abreu disse...

Acredita que meu medo de trovões e raios só voltou porque depois de anos brincando na chuva, descobri que no Ceará cai muuuuito raio?! Ano passado caiu um tão forte perto de casa, que queimou quase todos os computadores daqui perto! Aí fiquei com medinho rsrsrs

Ah, vou viajar quarta, por isso, vim logo lhe desejar logo um ótimo feriado e uma Páscoa maravilhosa! Beijão

Su disse...

Que delícia ler seu texto ao som de Marisa Monte - "Vilarejo"!! Foi uma sensação muito gostosa!! ^^

Infelizmente quando crescemos esquecemos de ver cada detalhe no céu, cada bela e preciosa constelação. As cores estão ai cada dia mais vivas, nós que não vemos, ou não queremos ver!!! =S
Esse tal corre corre nos deixam cegos, mas basta olhar para o lado e enxergar a beleza das coisas. Olhar e perceber que o cinza é lindo em dias de chuva, porque as cores ficam muito mais vivas. Olhar que o sol quando se despede faz o mais belo espetáculo onde nuvens e cores sobrevivem!!!
O importante é olhar e sentir os detalhes!!!!

Beijos, FLor

Éverton Vidal disse...

Poxa você me deixou até sem palavras. Arrisco-me a dizer que este é um dos melhores textos que já li na vida.

E você tem toda razão. E faz eco com o Cristo... "aquele que não nascer de novo (e se tornar criança) não pode ver o reino de Deus".

Parabéns Lorena.
Inté.

Wilcomjc disse...

Olá!
Adorei teu blog, muito inteligente!

Seja sempre bem-vinda no Celebrai!

Lyra disse...

Olá, venho desejar uma Boa Páscoa, replecta de amêndoas e boa disposição.

Beijinhos e até breve.

Lyra
;O)

On The Rocks disse...

belo post esse. admiro muito seus escritos...

bj

Natália disse...

Lore, geralmente é isso mesmo que acontece quando a gente cresce: passa a viver no piloto automático.

Infelizmente, nem sempre a correrria do dia-a-dia permite que a gente admire desenhos nas nuvens, mas é sempre bom parar um pouquinho pra ver as cores do dia e a beleza dos pequenos milagres, nem que seja durante o trajeto casa-trabalho.

Beijão pra você e Feliz Páscoa!

Ju Pietra disse...

Oi Lori, saudade de vc...
O texto está incrível.
beijoo
Ju

K disse...

Olha o que o mundo da internet me traz =D Estava em outro blog e vi um comentário seu... aí vim parar aqui =D
"Serendipity", não sei porque vc colocou esse título, mas é um filme que eu amo!

Não deixe de escrever, faz um bem danado pra vc e vai saber se pra quem lê também!

Ótima semana!

=******