domingo, 17 de fevereiro de 2008

Sobre o nome desse blog.

Antes de começar a postar sobre coisas relevantes da vida, resolvi explicar o porquê do nome do blog. Primeiro que quem já me conhece sabe que é o mesmo nome do meu fotolog. E quem me conhece um pouquinho mais sabe que é uma música do The Stranglers, que foi gravada pela Tori Amos, que é uma das minhas cantoras favoritas de-todos-os-tempos-amém.

"One day you see a strange little girl look at you"

Eu sempre me achei estranha, diferente, dissnonante com as coisas e pessoas à minha volta. Eu lembro que a primeira vez que me senti assim foi quando nós mudamos do Espírito Santo para a Bahia.Tudo era muito diferente do que eu estava acostumada, até a paisagem era diferente. Disso eu me lembro bem, lembro do meu pai chegar em casa falando que na Bahia você podia olhar o mundo a perder no horizonte, porque não tinha morro, montanha... Eu acostumada com as serras capixabas, não conseguia conceber uma imensidão de nada, um lugar onde eu pudesse olhar a terra se encontrar com o céu. Coisa assim eu só tinha visto no mar...Pois eu vi, assim que chegamos lá, vi as extensões de pasto tão grandes que a terra realmente se encontrava com o céu, no limite do horizonte.

Além da estranheza da paisagem, houve também a estranheza do sotaque, das expressões e dos costumes. Eu só tinha 10 anos, então, e não me conformava em não entender o que as pessoas queriam dizer. Se queriam meu apontador emprestado, por que pediam pela lapiseira?? E se era eu quem pedia uma lapiseira tinha que explicar que queria, na verdade, o que eles chamavam de grafite, mesmo eu sabendo que o grafite era o que estava dentro da lapiseira (que eles chamam de ponta de grafite). Claro que a pior parte era a escola, mas não era só ali que as coisas eram diferentes. Na rua, a calçada se chamava passeio, a rotatória chamava balão, o uniforme se chamava farda... No supermercado as pessoas conheciam jambo como eugênia, cajá como cajarana, pinha como fruta-do-conde, o feijão preto (que eu havia comido a minha vida inteiria até então) era incomum e eu tive que aprender a comer feijão branco (que na verdade é marrom) e feijão verde, beber água mineral, comer carne de sol... Nada que eu não goste e não tenha me habituado, hoje em dia, mas na época não foi uma mudança fácil. Eu realmente era estranha àquilo tudo.

"One day you see a strange little girl feeling blue"

Com o tempo, claro, eu me acostumei e a estranheza não tinha mais a ver com a linguagem e com os costumes. Na minha adolescência eram outras coisas que me distanciavam da grande maioria. Meu gosto musical, meu jeito de se vestir, minha pequena fobia de multidões, o fato de não gostar muito de festas, de freqüentar a igreja, de não ter arrumado um namorado cedo, tudo isso me fazia diferente. Eu não era a única assim, claro, mas isso não diminuía em nada o sentimento de não pertencer. Foi isso que minha estranheza primeiramente despertou em mim, o sentimento de não pertencer àquele lugar. Parecia que eu olhava o mundo de fora, através de uma janela, simplesmente não conseguia me encaixar. Eu tinha amigos, eu sempre tive grandes amigos que se pareciam comigo, e isso ajudava bastante. Mas quando se é adolescente a emoção é que conta, que fala mais alto. Eu não gostava de me sentir deslocada. Eu me sentia mal por não poder levar meus CDs favoritos para as festinhas da sala, porque sabia que ia ser motivo de chacota. Eu tentava ignorar o que as pessoas comentavam por eu não ir às festas, não beber, não ficar com um monte de garotos, essas coisas que as adolescentes "normais" da época faziam (e hoje em dia fazem cada vez mais cedo, pelo que eu sei). Eu tinha a sensação de que tinha nascido na época e no lugar errado, e isso era bem angustiante. O meu sentimento ruim em relação a isso durou até, mais ou menos, meus 16 anos.

"She didn't know how to live in a town that was rough
it didn't take long before she knew she had enough"

Depois dos 16 anos eu comecei a achar legal ser diferente do resto. Era como se eu fosse única, e, por isso, especial. Engraçado como o sentimento mudou de uma hora pra outra, eu não sei explicar como aconteceu, só que aos 16 anos eu já era orgulhosa o bastante pra gostar das minhas diferenças, mais ainda do que das semelhanças. Eu ainda tinha a sensação de que olhava o mundo de fora, mas eu olhava para mim lá no mundo e achava interessante ser uma dissonante. Não que eu ache que todas as pessoas são iguais, eu sei que todos somos diferentes de alguma forma. Mas sempre existem aquelas características que unem os grupos, e depois dos grupos formados essa característica se ressalta e é a identidade daquele grupo. Eu olhava para o mundo e via vários deles, bem mais populares que o meu, que era o grupo dos diferentes. Meus amigos eram conhecidos ou por serem nerds (me encaixava aí) ou por serem fisicamente e comportamentalmente estranhos (tinha um pouco daqui, mas não tanto). Nessa idade o grupo é uma coisa muito importante. Fazer parte do mundo é, sem dúvidas, fazer parte de algum grupo, mesmo que seja um grupo que se uniu simplesmente por que todos os membros não se encaixavam em nenhum outro lugar.

"She'd run the town one day, leaving home and her country far away
Just beware when you're there, strange little girl."

O engraçado é que, depois de um tempo, eu comecei a me diferenciar da massa do grupo e a me perceber como indivíduo. E aí minhas estranhezas parecem que ressaltaram ainda mais diante dos meus olhos. Era a época do vestibular, de ir embora, de me virar sozinha, de ser estranha sozinha, de ser única, e, dessa vez, sem grupo acompanhando. Poderia ser uma esperiência ainda mais difícil do que foi no início, mas parece que a maturidade toma conta nessas horas (pelo menos é a minha explicação), e você aprende a não só conviver com seus pequenos dilemas existenciais, como tirar dele os grandes aprendizados. A verdade é que eu percebi, aqui, longe de casa, da família, na Universidade, que sou uma estranha num mundo de estranhos. Ainda sou a mesma garotinha estranha de antes, que faz e sente as mesmas coisas incompreensíveis, que ainda não se encaixa no retrato do padrão esperado, mas o que é um retrato senão uma representação imperfeita, não é? O padrão não existe mesmo, foi o que eu aprendi, se existem retratos desse padrão por aí, garotas "mais normais" do que eu, que ótimo para elas. Mas ainda assim, que bom para mim ser diferente e aproveitar minhas diferenças com sabedoria. Eu, no fundo, nunca quis ser igual.

4 comentários:

tiago.augusto disse...

Hey! o/
e vc fez seu blog antes de eu fazer o meu! (pelo menos me serviu de incentivo... não demora eu dou um jeito)
tô passando mesmo pra dar as boas vindas e desejar todas aquelas coisas boas q se desejam qdo se abre um blog =P

e sobre a última frase do post: q bom!! por isso q eu gosto tanto de vc. =D

o/

Éverton Vidal disse...

Oi Lorena-strange-little-girl!
Nossa... foi uma boa idéia começar do começo, contando-nos sobre você... Me identifiquei bastante, também já me senti 'deslocado' quase que pelos mesmos motivos -guardando as devidas proporçoes.

Parabéns! Longa vida ao seu blog!! E é claro te adicionei lá no 're-novidade' pois vou sempre passar por aqui.

Bj!
Inté!

Bruna disse...

Oi Lorys!
Achei legal tu explicar o nome do blog.. até porque, ele tem um significado que rende um post! hehehe O meu seria descrito em 5 linhas, mas enfim!
Me identifico contigo nesse aspecto. Nunca cheguei a ser tão dissonante assim - eu acho - mas sempre me destaquei pelas "estranhezas". Vegetariana, filha única, fazenda, nunca ia nos passeios da escola, não era bonita, vestia camisetões, nunca ficava com os guris, nunca nem dançava com ninguém nas reuniões dançantes e, por muito tempo, me isentava de participar de qualquer brincadeira (de pega-pega até canastra).
Eu acho que não sou complexadona, mas com certeza ainda tenho um desejo súbito de estar sempre encaixada em algum grupo, de me sentir aceita sempre que posso. Não sei se tu tem isso, mas acho difícil não ter! Mesmo que sejamos orgulhosos das diferenças!
Nossa, achei MUITO estranho como falam as coisas na Bahia! hehehe Não sabia disso não! Aqui também é lapiseira e grafite e apontador, tudo igual! hahaha Eu ia estranhar muito mesmo se fosse pra lá.. e no Auto da Compadecida, eu demoro uns 10 minutos SEMPRE pra começar a entender o que eles falam, de tão rápido! hahaha Esse Brasil é doido!
Beeeijos! ;)

Éverton Azevedo disse...

Uia. Tou procurando o texto sobre Alice no País das maravilhas, mas parei pra ver que estou aqui quase desde o início =P.