quarta-feira, 8 de julho de 2009

maria-vai-com-as-outras

Um dia nasceu Maria, com a pele macilenta de menina que nasce já meio desnutrida, cara de interior do Brasil. Nasceu pequena, miúda, coisa de nada, nem acharam que ia vingar, mas a mãe fez promessa pra Virgem que ajuda os pobres e a menina há de se chamar Maria da Graça, se a graça for concedida. Vingou e de graça só tinha o nome, cresceu assim sem viço e sem luz, desenvolvendo como um broto no solo seco, às mínguas de tudo, de nutriente a carinho.

Na escola não gostavam dos seus vestidos desbotados e maiores do que o corpo magro, roupa herdada das irmãs mais velhas e das primas, a chamavam de maria-mijona e achavam graça e faziam troça. E a menina chorava desgostosa aquelas lágrimas de dor infantil, alminha magoada e humilhada. Em casa falavam que era boba, maria-mole, "deixa de ser besta, Maria, endurece esse coração que a vida não é fácil pra pobre". Todo domingo ia a igreja com a família e olhava sua madrinha feita estátua no altar, elegante e de coroa na cabeça, o manto azul e as vestes brancas e tinha que admitir que aquela Maria tinha graça, mas não ela.

Crescida, queria ser como as outras, queria se pintar e arrumar namorado, mas a natureza não cooperava e Maria não desenvolvia. Enquanto as outras nasciam da flor, em Maria a rama virava a cepa e coisa desconjuntada. Ainda assim, tinha em sua inocência e olhos grandes e famintos uma verdade que não passava desapercebida aos jovens rapazes. Tinha amor atrás das pupilas e a carência de afeto que transforma a feiúra em algo triste e atraente. Mas corpo não tinha, nem beleza, e as outras esbanjavam da graça que Maria só tinha no nome e ganhavam os namorados, e trocavam entre elas e nada sobrava para Maria. Que também merecia viver e amar.

E quando achou que não havia mais tempo, que não tinha esperanças em sua desgraça, na vida de Maria apareceu João. Primeiro disseram que era um ninguém, que apesar de pobre e desajeitada a menina tinha que casar com alguém de nome ou posses, já que era fato que não conseguiria os dois predicados no mesmo rapaz. Mas Maria não se importava porque João via o que existia por trás do detrás da alma dela, ele a compreendia por ser também um espinheiro num jardim. Vinha do norte e conhecia o que era rebentar no mundo ao invés de nascer, o que era sobreviver e não viver, e apesar da secura de espírito maltratado, João amou Maria. E em sua teimosia empacada, marcou casamento e encomendou a festa. A família não teve escolha, pelo menos o rapaz tinha os dois braços que é só o que se precisa nessa vida quando a gente quer trabalhar, e a moça está acostumada e a pobreza só vai mudar de endereço.

Mas a partir desse dia a pobreza abandonou Maria e deu lugar à felicidade que ela ainda não conhecia. Porque pobreza triste é a da alma desgarrada de alguém que só quer ser feliz e não sabe como. No casamento ela usava o vestido branco e o véu e a coroa na cabeça. A expressão serena da menina no altar, fazendo jus ao nome e à figura da Graça que lhe deu o nome. E a partir desse dia Maria foi como as outras.


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Postei esse texto no Bilhetes, há quase um ano atrás. Hoje, mexendo em arquivos antigos do blog, eu o encontrei e resolvi que ele merecia vir para cá também. É um texto querido pra mim. =)
Essa semana não posto mais. Estou partindo de viagem e só volto a ter acesso à internet no fim-de-semana. Au revoir! o/

9 comentários:

Kenia Cris disse...

Belíssimo! Me lembrou de "O homem da cabeça de papelão", de Paulo Barreto. Assisti uma montagem 3 vezes aqui em BH, simplesmente maravilhoso. Você conhece? Estou deixando um link pra você conferir, se tiver interesse. Acho que vai gostar. :)
De Maria, acho que todas nós temos um pouco né. Beijo carinhoso, que faça uma boa viagem, vc vai fazer uma falta danada! Se cuida!

O homem da cabeça de papelão

1ª Parte: http://www.youtube.com/watch?v=qQCJ6E_1EIw

2ª Parte: http://www.youtube.com/watch?v=AwG3yiVSLYM&feature=related

Du disse...

E os teus textos marcam tanto em mim, que logo no início eu já percebi que tinha lido anteriormente! Nem preciso dizer que amei ler de novo, né?

Deixei um selo que vem com uma espécie de meme junto: indicar as cinco coisas que mexem com seus sentidos nesse momento!
Indiquei você, porque o seu blog é um dos que mexem com meus sentidos! rsrsrs

Beijo!

Amigao disse...

As marias estão sempre ensinando algo.
Não conhecia e gostei muito.
Gostei? Quando foi que eu não gostei de alguma coisa que você escreveu? Nunca.

Beijão amigona!

Luana! disse...

Eu gostei tanto, que o li letrinha por letrinha, imaginando como foi teu processo de cristalização de sentimentos.
Lindimorrer.

Bjos, Lô!

Camila disse...

Fazia tempo que não andava pelos blogs, mas lembro que li esse texto lá no Bilhetes. E lá fiz os devidos comentários. Poderia fazer outro ou outros comentários, mas agora não consigo parar de pensar que perdi seu aniversário. Que não te desejei tudo de melhor e um feliz aniversário, que não te disse o quanto te admiro e o quanto desejo que Deus te conserve essa menina maravilhosa que é (sim, menina aos 24! e isso é uma bênção). Desculpe a ausênsia sobretudo nesse dia!

Beijo grande, linda Lores!

Thais disse...

Ia dizer a mesma coisa que a Du! Esse texto é tão marcante, Lóris, vc ñ imagina.. Eu consigo imaginar a Maria!!!
Acho que vc devia inventar mais histórias, sabia?

Éverton Vidal disse...

Belíssimo é pouco. E o Amigao disse certo: "As marias estão sempre ensinando algo".

Dentre todos os teus textos fantásticos este é um dos mais especiais para mim como leitor.

Abraço!

gato preto disse...

(o que você me diz?)
Que é um texto realemente belo!
Parabéns pela transformação desse texto: da tragédia fez-se a beleza!
Como é de costume, a beleza está lá em algum cantinho da tristeza e miséria, que é a arte de sobreviver e quem sabe, viver.
Parabéns!
ps:se gostou da recomendação da Cris "O Homem da cabeça de Papelão" assista ao curta do conto http://portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=8718, são só 15min, e se você gosta de curta metragem vale a pena conferir esse site (se você ainda não o conhece!)
Um beijo para lorena e outro para amélie!

Fabiana Farias disse...

Poxa, Lorena! Mais pessoas precisam ler você! Amei, chorei...você sempre mexe com as minhas emoções.
boa semana
bjs